quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

As coisas mais lindas que já fizeram pra mim (Lista Tess)

Eu e a minha morena alagoana, por quem o meu eu lésbico curte um amor desses muito bem do correspondido, estávamos a divagar e a falar sobre umas coisas ruins, uma fossas, umas bossas, até que a mais otimista de nós duas, lembrou que muita água já rolou sobre nossas pontezinhas e que às vezes, nossa maldita memória é seletiva às avessas. Taqueopariu, mas por quê? E assim, como se estivéssemos num filme de amor muito bem editado, resolvemos também editar, em duas listas (yes, a gente adora uma lista!!), as coisas mais lindas que já fizeram pra cada uma de nós, nas puerras das nossas loucas vidas. Sem agradecimentos, nem esperem por isso, porque a gente mereceu cada uma delas. Fora as que, mui ingratamente, esquecemos.


Até os 13 eu fui a gata borralheira. Olhava no espelho e pensava: “um dia eu viro cinderela”. E um dia virei. Lembro perfeitamente, usava um vestidinho amarelo emprestado da melhor amiga, uns óculos escuros emprestados da irmã e tudo à bordo de uma pseudo confiança. E lá fui eu desfilar pelo bairro, onde estavam todos, eu disse TODOS os menininhos que até ali me deixavam mofando na festinha americana, sem me tirar pra dançar. Eles descobriram que a menininha tinha afinal qualquer coisa. E, por uma noite, eu fui a cinderela mais galinha que se possa imaginar. Eram cinco os bonitinhos por quem eu costumava suspirar e eu fiquei com todos eles, um de cada vez, of course. Exatamente até a meia-noite, que era a hora que os bailinhos costumavam encerrar. E ainda deixei o melhor deles pro fim.  Porque eu sempre fui esperta, brother.


B: O cara com quem eu descobri o significado da palavra desejo. Carnaval, um baile desses num clube em Laguna Beach. Eu querendo ser sexy e minha mãe faz uma fantasia de baianinha pra mim, daquele tipo menininha cuti cuti, coisa fofa! E eu no meio do salão, com aquela roupinha idiota, me sentindo uma jacú de botas, tentando destruir as bolinhas de isopor com purpurina da minha cabeça, indignada da vida. Nisso passa o moreno mais lindo do mundo e diz e canta: “ baiana boa, gosta de samba e diz que é bamba”. Salvou uma noie que tinha tudo pra ser lamentável.
O: Eu 18, ele 14. Terminávamos uma vez por semana, até que um dia, fui embora da cidade de vez. Quando voltei, em férias, ele namorava uma amiga minha. Uma noite me deu uma carona e disse: “ Tu é uma metida do c%&$, mas chega e o resto desaparece”.  Só que ela não desapareceu e eles continuaram namorando.
R: Três dias numa praia, três anos à distância. Ligava quase todo dia pela manhã, gastando é claro, o telefone da empresa onde trabalhava, pra dizer: “acorda minha maluquinha”. Quando eu perguntava o que a gente era, ele dizia: somos "quase" namorados. Mandou flores em um aniversário, sem eu nem cogitar que se podia receber flores em Santa Catarina de alguém que morava em São Paulo. Amarelas. Nunca passamos do quase.

G: Ah, o tal do cara doce. Eu aos 19 anos não estava preparada, tem fases em que a gente prefere os malandros. Tem umas aí que nunca saem dessa fase. Ele na faculdade, eu cursinho pré-vestibular. Me ensinava matemática e física todas as tardes. Não ficou puto no dia em que estava la e, casa, quando recebi do outro as tais flores amarelas. Uns dez anos depois, me telefonou.Tentamos. Ele continuava doce. Eu continuava despreparada. Foi para ele que eu disse a coisa mais idiota  a se dizer a um cara quando não se quer mais tentar. As meninas costumam ser cruéis com os caras gentis. Aí, finalmente ele ficou puto. Sem doce algum.

F: O latin –lover. Início de faculdade, ele na sala ao lado. A entrada foi triunfal. Pra me conhecer ele deixou um recado com nome-telefone no quadro negro da minha sala. Minha professora se apaixonou. Eu me apaixonei. Um dia, quando brigamos, bateu na minha porta, com uma lata de pêssegos em calda, uma garrafa de vinho e um buquê de flores e disse: “Você poderia, por favor, contar até 50 pra gente recomeçar de onde parou?". Porque vimos 9/2 Semanas de Amor.

L:  Professor de fotografia. A proposta era viver uma espécie de Lua de Fel, porque ele dizia que eu tinha cara de safada. Um dia, descobriu que não: “Você adora posar de doida, mas é a pessoa mais doce que eu conheço".
D: Irmãozinho da melhor amiga. Dormíamos uma certa noite, na casa de praia dos pais dele. Eu, em uma cama de casal com ela, ele num colchãozinho ao lado.  Dormimos de mãos dadas, escondido dela. Uns dias depois uma carta, doce: “Se você quer ser minha namorada, ah que linda namorada você poderia ser...”. Conte o último como o primeiro encontro.

I: A paixão. A coisa mais linda que ele fez por mim foi acontecer. E voltar a acontecer doze anos depois.

N: Amor. Rasgado. A melhor coisa que fez por mim foi me deixar ir embora.
E: A melhor declaração de amor ever! Numa carta, um desabafo: “Sou apaixonado por você, sua FDP! E tô revoltado com a tua burrice crônica".

S: " Vim pra dizer que eu te amo"
T: Talvez o cara que mais tenha me conhecido na vida. "Porque fui nascer tanto tempo antes de você, meu anjo?"
X: 20 anos, 32 anos: a coisa mais linda que fez por mim foi vestir uma gravata do mickey pra eu perder o tesão de uma vez.

J: porque um dia jogou tudo pro alto e veio pra mim, dizendo: “achou que eu não vinha?” E casou comigo.

C: " Faça um filho comigo". (e porque nunca amei ninguém tanto assim)

Belle, a melhor amiga: " te amo e me recuso a acreditar nos teus fatalismos"

Melhor amigo gay: Uma foto nossa na praia num dia de vento. Eu deitada no colo dele. Atrás está escito: "Sou mais feliz por que você existe. Esse colo é teu pra sempre". 

Ok, Ok...já levei pé, já escutei muitas coisas ruins, já me deixaram no meio do caminho, já joguei minhas pérolas aos porcos, já gostei de quem nem tinha alcance, já gostei de quem não estava ao meu alcance, mas eu que não sou louca de escrever uma lista das piores coisas que já fizeram pra mim..Capicce?


"mas é doce morrer nesse mar de lembrar e nunca esquecer/ e se eu tivesse mais alma pra dar/eu daria, isso para mim é viver " (Djavan)

As coisas mais lindas que já fizeram pra mim (Lista Isa Diamonds)


Eu dei a ela a idéia de fazer uma lista de todas as boas coisas que nos fizeram. Um elogio, um pequeno gesto, um grande gesto. Quando estivéssemos sentindo nosso chão cair, íamos lá na listinha e víamos o mundo-cor-de-rosa again. É, eu colecionava papéis de carta. Tinha diários, sou da década de 80, não existiam blogs. E, ao contrário da minha amiga, tenho também uma lista negra. Não procuro, mas se vem no meu colo a oportunidade, eu me vingo sim. No mais, vamos nos ater ao lado rosa da força. Enjoy!

Eu era uma Patinho Feio. Aquela historinha do pato medonho que vira um belo Cisne.  Nenhum garoto da escola me dava bola, nenhum. Era magricela, desengonçada. E fazia balé, imagine! Então me concentrava na bíblia e em Shakespeare. É, juro! Li o apocalipse inteiro e 3 atos de Shakespeare. Dos 12 aos 15. E passei a faculdade inteira namorando um cara só.


B: Aos 15, descobri o mundo com o primeiro namorado. Do primeiro toque ao primeiro beijo. Sem deixar de ser virgem porque ainda era pecado. Um dia, na praia, ele contou todas as estrelas do céu pra mim. Pobre rapaz!

T: Todo problemático, uma novela mexicana, mas eu parecia gostar da coisa. Tinha uma ex-namorada a tiracolo, sempre. EVER. Eu desistia dele mil vezes e mil vezes voltava atrás. Até que ele disse: ‘Quero que você seja a mãe dos meus filhos’.

J: Um primo distante. Não daria certo desde o início da humanidade. Mesmo assim, a gente errou. Ele pegou uma mecha do meu cabelo, cheirou e me disse olhando nos olhos: ‘Você foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos’.

F: O primeiro grande amor. E o último. E talvez o único. Meu fiel escudeiro. Doce, gentil. E acho que a melhor declaração de amor também: ‘Você parece daquelas garotas prendadas, que passam nos comerciais de TV e a gente sonha quando tá na escola...’. Eu achei lindo. Quando ele fez a primeira tatuagem, não quis que eu fosse para não vê-lo chorar, se fosse o caso. Eu fiquei puta da vida, mas não resisti quando ele sorriu e disse: ‘Agora somos um casal tatuado, amor!’ ·

N: Paixão daquelas avassaladoras, inesperadas. Surreal. E ele me mandava depoimentos no Orkut: ‘Não tenho palavras pra dizer o quanto te amo. Que poeta fudido eu sou. Você me deixa muito gay!’. E me apresentou Elvis e me ESCREVEU Elvis. Um dia, quando brigamos por causa do meu ciúme, ele escreveu off no MSN a letra inteira de ‘I Can’t Falling In Love With You’.

D: Ser nerd era a melhor condição dele. Ele entendia quando eu falava de Star Wars. Entendia quando eu imitava Jessica Rabbit. Enfrentava horas de viagem só pra me ver. E vinha com chocolates e danetes e era uma festa. Foi rápido, acabou quando nem havia começado. Mas quando acabou, ele confessou: ‘Não terá graça levantar mais ninguém no elevador...’ ·

J: Alguém por quem eu NÃO PODIA ter me apaixonado, mas como as melhores coisas da vida, foi inevitável mesmo. Trabalhávamos juntos, dia a dia, ali, no convívio, disfarçando a todo custo um desejo muito sufocado. Um dia, por e-mail, ele mandou: ‘Torna-te responsável por tudo aquilo que cativas’. Ou seja, um FDP que não era capaz de arcar as conseqüências de também ter se apaixonado por mim.

P: Paixão platônica, que nunca aconteceu. Mas eu não posso deixar de lembrar aquele jovem repórter do caderno de política, sagaz, rápido e frenético, como pede toda a alma de jornalista. Seria estranho se’u não me apaixonasse de cara. Ele logo virou editor do jornal. Eu repórter de cidades. E ele me editava, em quase tudo. Só pra disfarçar que não resistia aos meus olhinhos de jabuticaba. Um dia arranjou uma namorada. Numa festa entre amigos, ela piscou e ele me roubou um beijo. Disse ter sido o melhor da vida dele. Eu saí do jornal e nunca mais nos vimos.

F: Mais uma paixão platônica, só que aconteceu. Era mais que platônica, era antiga, envelhecida. Conhecíamos-nos apenas por internet. Quando o vi pela primeira vez, odiei. Depois me apaixonei de novo. Aliás, ele tem este poder de fazer eu me apaixonar quantas vezes ele quiser, em qualquer época, em qualquer lugar. Um doce canalha. Eu ainda tava longe quando ele me mandou este poema do Xico Sá. Eu tinha acabado de voltar de um rodízio. Um dia, disse que ia deixá-lo louco por mim. Ele respondeu: ‘Mais ainda?’ E quando finalmente me beijou, disse: ‘Que beijo bom!! Onde você aprendeu? Não consigo ir embora...’. Mas o que me prendeu, foi quando disse e pareceu tão honesto: ‘Achei que não vinhas mais. Tou orgulhoso de você.’ ·

LF: Doce, muito doce. Meu porto-seguro. Eu nunca consegui me apaixonar por ele. E ele desabafou: ‘Pensei que você seria a mulher da minha vida’.

Pilar, melhor amiga1: ‘Te dou um valor do caralho, desgraçada!’ ·
Luciana, melhor amiga3: ‘Não ouse borrar a maquiagem de Diva!’ ·
Happy End. Claro que tive minhas tragédias, óbvio. Mas não convém contá-las, sequer lembrá-las. Já enriqueci demaaaais os porcos. Vinde a mim, pôneys bonitinhos


quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

You're so beautiful, boy

" Faltava abandonar a velha escola/ Tomar o mundo feito coca-cola
  Fazer da minha vida sempre/ O meu passeio público
  E ao mesmo tempo fazer dela/ O meu caminho só
  Único" 

  (Lulu Santos)
Nunca vi (e provavelmente nunca verei) ele franzir a testa no sol ou passar a mão pra ajeitar os cabelos. Não sei se, quando tropeça no meio da rua, ele sorri encabulado ou xinga a mãe do padre. Ou se quando dança é desajeitado ou sexy, se é gentil com estranhos, se fica encabulado no elevador lotado, se gosta de árvore de Natal, se prefere vinho a vodca. Sei que ele é convencido e convence, ou no mínimo, consegue arrancar uma gargalhada. Sei que ele gosta de posar de safado porque também caiu no conto de que só os safados tem pegada, mas é o último dos românticos. Seria Dom Juan De Marco, seria Blade Runner, ou um filminho de amor sessão-da-tarde. Chama-se Bruno, nome que quase nunca uso para chamar sua atenção porque prefiro “Oi moço, Oi Olívia, Bichinha Magrela, Jack Twist, Safado, Feio, Lindo, Oi My Love”. Contra, só o fato dele ser dentista. Tem coisa mais “boring” do que alguém ser dentista? A favor, “Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças” ser um dos filmes favoritos dele. Imagina o sujeitinho: 27 anos, bonitinho, ordinário e romântico ao ponto de se emocionar nesse lindo filme de amor? Casa, minha filha. Casa.

Um dia ele pediu; “escreve sobre mim, como um presente de Natal”. Isso depois de dizer pra me ganhar: “você definitivamente é uma mulher estimulante”. Sem nem ao menos explicar o que raios ele quer dizer com isso. Ele é assim, ele te compra. Bem barato. Me deu de presente os adjetivos que mais gostei de ganhar, em natais, anos-novos, aniversários e dias comuns: criativa, adorável, inteligente, interessante, encrenqueira, contraditória, divertida. Ok, encrenqueira não parece bom, mas quem encrenca gosta de ser reconhecida. Depois disso, o que eu posso dizer dele, para ele?  Tuas piadas são péssimas, brother. E teu gosto musical é meio duvidoso. Nunca teu coração combina perfeitamente com o meu. My friend.

Aquele tipo de cara que a gente não sabe se beija ou se fica na mesa do bar conversando até de madrugada. E a conversa pode ser leve, cheia de ironias e risadas ou pode ser melancólica, quase triste. Ele vai te alfinetar diversas vezes, mas se tiver que dizer uma verdade dessas duras de engolir ele o fará com delicadeza, como se estivessem dançando um bolero bem lento. Gosto de imaginar que foi uma criança levada, mas fico sempre com impressão que era bem comportado e que muitas vezes, ainda hoje, quer continuar a ser. Não seja. Seja um tango, um carnaval, não chova fraquinho, caia feito tempestade no mar, raio, trovão. Agora é a hora, vai por mim. Seja louco,  irresponsável algumas vezes, não tenha medo das quedas, abrace a puerra desta vida com toda força. E não canse meus ouvidos falando em portos-seguros! Queime teus navios. Prova o gosto de tudo, não resista às tentações, fique com o que for bom, seja muito feliz, mas sofra um pouquinho pra ficar mais forte. Tome todos os porres, mas morra de tédio algumas vezes, pra dar a medida exata do que se tem, do que se pode. Faça poesias ridículas, colecione cartas de amor, viva um amor inesquecível. Depois esqueça.

O garoto mais adorável das terras de Alagoas, o amigo que eu queria perto, mas a vida lá é perfeita? You are so beautiful, boy

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

74 coisas que me fazem feliz


Pra não esquecer, pra lembrar, pra me dar conta, pra incluir, pra preservar, pra dar a medida.

Saber que são coisas pequenas, grandes, coisas importantes, bobas, são as minhas coisas, são muito mais que essas, são as que recordei, passam desapercebidas, ou não.

Se repetem, com sorte. Acontecem o tempo todo, ou só uma vez e bastou.




1-Acordar e ver que o dia está ensolarado
2-Acordar e ter mais um tempinho pra ficar de preguiça na cama
3-Ver que esta chovendo e voltar a dormir
4-A sensação de chegar na praia no verão e tirar o chinelo e meter os pés na areia pela primeira vez
5-Um "eu te amo", vindo de quem queremos que venha
6-Comprar livro novo e sentir o cheirinho do papel
7-Escrever
8-Ler no sofá, fumando um cigarro (tô nem aí , patrulha!!)
9-Morrer de rir
10-Chorar em filme de amor
11-Dançar samba de salto alto e suar
12-Cortar a onda no primeiro mergulho do verão
13-Achar que perdi alguma coisa e depois encontrá-la quando estava quase desistindo
14-Ver um amigo com quem não tinha contato há muito tempo e perceber que ficamos exatamente no mesmo ponto em que tínhamos deixado.
15-Estar perdidamente apaixonada
16-Ouvir: "estou perdidamente apaixonado por você"
17-Sexo bom que me deixa com as pernas bambas, mancha na coxa e me sentindo totalmente mulher
18-Sexo com amor, que me deixa com as pernas bambas, mancha na coxa e me sentindo totalmente amada
19-Viajar e voltar pra Ilha, ver a Ponte Hercílio Luz e pensar: “como esta cidade é linda, eu moro aqui!”
20-Receber telefonema de pessoas queridas
21-Sair só com as amigas, rir muito, falar bobagens de mulherzinha, lembrar das roubadas passadas e voltar bêbada
22-Cantar músicas que me recordam algo, com alguém que também se recorda
23-Ouvir uma música pela primeira vez e achá-la linda
24-Lembrar que nessa semana tem feriado
25-Ganhar mimo da minha mãe
26-O abraço de alguém de quem sentia muita falta
27-Chegar em casa e ver meus cachorros abanando o rabinho pra mim
28- colocar o Billy no meu colo, acariciar o peito do Nero e encostar minha cabeça na do Ringo
29-Cheiro de grama recém cortada
30--Comprar roupa nova, sapato, maquiagem, livro, CD
31-Dar presente
32-Ganhar um jantar à luz de velas surpresa
33-A sensação do cabelo molhado quando saio do chuveiro
34-A sensação no meu corpo e coração quando ouço uma bateria de Escola de Samba
35-Torcer pra acontecer....e acontecer
36-Uma conversa tão boa quanto sexo, um seo tão bom quanto uma boa conversa
37-Um café quentinho no frio
38-Comer qualquer coisa que contenha camarão
39-O sorriso de um bebê
40-Ganhar uma cantada original
41-O telefone tocar quando eu tô esperando que toque
42-O telefone tocar quando desisti de esperar
43-Receber email de amor, carta, bilhetinho, mensagem, sinal de fumaça
44-Pegar o elevador vazio
45-A fila do banco só ter duas pessoas a minha frente
46-Beber tequila
47-Ser útil para alguém
48- Ouvir Beatles
49-Papear com o taxista
50-Estar nos braços do meu amor
51-O sorriso dele pra mim
52-A generosidade da minha irmã
53-As piadas do meu pai
54-Tentar resistir a comer chocolate com medo das calorias e acabar não resistindo, a primeira mordida, prendendo na língua
55-Cultivar velhas amizades
56-Conhecer uma nova pessoa e pensar: adorei!
57-Ver Dirty Dancing pela enéssima vez
58-Comer batata frita
59-Pessoas com senso de humor
60-Pessoas doidinhas
61-Subir o Morro da lagoa
62-Poesia
63-Chegar em casa de manhazinha e ver o pior do sol
64-Comer bolinho de chuva num dia de chuva, com café e leite
65- montar pinheirinho de Natal
66- Estreiar uma camisola nova
67-Ver trovoada no mar
68-Vestidos longos estampados
69-Contar coisas engraçadas
70-Ouvir coisas engraçadas
71-Conversar antes de dormir
72-Deitar num lençol recém lavado
73-Ouvir Tom Jobim
74-Ser a razão da felicidade de alguém

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Let´s dance

Ai, estou triste. Morreu o homem que mais lindamente vestia uma calça preta-justa no mundo! Aquele que em Dirty Dancing fez a gente acreditar, ainda na adolescência, que a garota sem gracinha podia conquistar o gostosão do pedaço. Acho que foi justamente essa a grande sacada desse filminho sessão da tarde. Toda menina que não se encaixava exatamente no padrão de beleza da época estava ali representada pela Jennifer Grey. A gordinha, a de óculos, a baixinha, a magrela. Todas podíamos "pegar" o gato do Patrick, o galã do colégio, o marrento da balada, o disputado a tapa. E sonhar nunca custou nada mesmo. 

Ok, é filme de mulherzinha e blá blá blá wiskas sachê. É. Eles cultuam Jackie Chan, peramore(!), entonces deixem-nos com nossas mulherzises. E desculpem rapazes, comemoramos aniversários, mas quem é que cresceu? voc}es ainda assistem filminhos de perseguições em alta velocidade e muitas porradas. E nós, nós ainda suspiramos baixinho naquela cena final,  com Patrick e Jeniffer dançando ao som de  I had the time of my life. Á época,  o cúmulo do sensual, hoje, cafona de tão ingênua. 

O sucesso para Swayse veio tarde, depois dos 35. E eu estava lá pra ver. Era um homão em “The Outsiders” do Copolla, ao lado dos menininhos Tom Cruise, Rob Lowe e Ralf Machio. O filme em que todas nós, garotas começando a vida, suspirávamos e dávamos gritinhos, pra depois sair pela cidade e achar todos uns sem graça. Os meninos bebiam pra sair pra baçada, nós assistíamos a Dirty Dancing. Não era um bom ator, mas tinha carisma. E pra valorizar ainda mais o sujeito, casou em 1975, antes de sequer cogitar ser ator e permaneceu casado até 2009, com a mesmíssima mulher. Pasmem. Eu pasmo. Quase acredito que o amor existe.


Eu sou cinéfila, adoro Touro Indomável, Crepúsculos dos Deuses, meu ídolo é Marlon Brando, mas confesso, será sempre a minha "pipoca" preferida. Swayse morreu hoje , aos 57 anos. Cedo. De câncer. Sofrido. E sempre que alguém morre, mais do que lamentar, eu desejo que tenha tido uma boa vida, que tenha tido com quem dividir as alegrias e as dores e que um segundinho antes de partir, tenha  passado pela mente, um  "valeu a pena”. Tem gente que não está atento a isso, nem sempre eu estou.  A viver de modo que quando esta puerra toda acabar, possamos levar mais gratidão do que arrependimentos. Algumas vezes gastamos a vida, como diria o protagonista de “Os Mais” de Eça de Queirós, sem nos darmos conta do que realmente importa. Não gastemos as nossas. Ah, e vamos dançar mais, please. Vamos dançar muito!




 

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Adeus ano-velho, feliz ano-novo



É agosto, ainda faltam quatro meses pro Natal e a chegada de 2010, no entanto, solto meus fogos agora, não exatamente para comemorar uma virada de ano, mas para dar passagem à esperança e dar as boas-vindas às coisas novas que vieram habitar a minha vida. Despeço-me do que ficou velho, do que virou passado, do que ficou pra trás, do que não cabe mais, para abrir espaço para o que  passou a fazer parte. Para novos amigos,  amigos que de distantes se fizeram próximos, para um novo amor, para uma nova mulher. Nunca pronta, nunca definida, a mesma de sempre, transformada, a menina revisitada, a mulher que se apresenta a ela mesma, novamente, e diz: "muito prazer".

Ah baby, não é fácil o caminho, não é sem medo ou sem dor, às vezes tanta. Um dia a gente se perde, um dia a gente se encontra e cai e levanta e cai e levanta, como se aprendêssemos a velejar num barco à velas. Mas como seguir em frente se nos sentimos como uma flor presa a um vasinho de mágoas? Aprendendo a olhar ao redor e acima e mais acima, deixando o sol  curar as feridas, desabrochando mais uma vez, vomo se fosse a primeira. Em um dos filmes da minha vida, que muitos amam e outros tanto detestam, “Magnólia”, uma frase permeia todo o enredo “O passado já era pra nós, mas não nós para o passado”. É isso. Como acertarmos as contas com o que pode viciar nossas experiências presentes e futuras? Porque nos prendemos ao passado, como se ele fosse algum troféu, como tantas vezes tiramos o pó, ou como queremos enterrá-lo, dar as costas a ele, sem nenhum entendimento.

O muito que demora para estendermos nossas duas mãos a ele, confrontá-lo, acarinhá-lo e, por fim, nos reconciliarmos com ele. Às vezes toda uma vida. Melhor se for agora. Porque somos parte do que já fomos, porque somos o que vivemos, porque percorremos essa estrada.Mas não fazer dele a nossa morada, não nos acomodarmos e adormecermos em seus braços.
Perdoar, aos outros e a si mesmo, não carregar culpas desnecessárias, saber viver com os arrependimentos (porque sim, nos arrependeremos tantas vezes na vida e por tantas coisas), não revisitar velhos fantasmas, não ter medo do desconhecido, das mudanças que se impõem. Ter lembranças boas, guardar velhas fotografias que nos façam sorrir, saber fazer a fila andar, nos darmos chance para seguir em frente, feliz. E, se possível, sem tanto medo. Agradecendo toda ajuda que encontremos nessa jornada. São nossas pedras preciosas. As suas. As minhas. E as minhas nesse reveilon de agosto tem seus nomes e a eles agradeço. Feliz ano-novo!

Para Alexandre, Edson, Lúcia, Claúdia, Cibele, Regina, Fernanda, Aldi, Carol, Cássio e para minha família.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Ringo Star, o resmungão (uma crônica bobinha de amor)


Não entendo quem não gosta de samba, quem não gosta de Beatles, quem não gosta de cachorro. Respeito, vá lá, mas não entendo. Eu amo meu caozinho preto e branco, com olhos cor de mel, com nome de Beatle: meu Ringo Star. E essa é minha declaração de amor pra ele. Esse amor que tento expressar todo dia, há quatro anos, desde que o trouxe numa caixinha, o filhote mais lindo que já vi. Primeiro pensei em dar a ele o nome de Brando, em homenagem a um outro ídolo, o Marlon, mas mudei de idéia bem a tempo, porque Ringo Star não tem nada de brando, ele é daqueles cachorros meio problemáticos, que independente do tamanho, se acha, quer ser o líder, disputa, ganha. É líder. Baixinho e marrento, feito o Romário. Sou fâ do baixinho também, então Ringuinho é o meu herói, meu bad boy resmungão.

Daqueles inesquecíveis, que acumulam histórias pra contar. Como chegar na casa da minha mãe pela primeira vez e assim que é largado ao chão, procurar o tapete mais bonito da casa e deixar sua marca: cocô com vermes. Um jeito muito Ringo Star de se apresentar, muito prazer. Ou sua maneira Mohamed Ali de receber um novo amiguinho, dos tantos que vieram depois dele, chamando pra brincadeira, com as patinhas fazendo passos de boxeador num ringue. Ou quando a brincadeira virou luta com nocaute. Quase matou meu Bibi, o vira-latas mais safado do mundo.

Desculpa, Ringuetes, por ter passado a liderança pro pastor, só porque ele é grandão e obediente, por te colocar em segundo lugar pra dar a comida, os petisquinhos, pra brincar. Mas você se rendeu? Claro que não, por mais que eu quisesse, se rebelava e mostrava pra mim e pra ele quem mandava nessa casa. Ringo que me olha esquisito e muito parado, se eu fico triste ou choro e que me espera no portão com um tapetinho velho na boca, querendo que eu entre logo pra brincar. Desculpa se não te levei muito pra passear. E obrigado, por estar naquele lugar quando eu passei por lá, por fazer parte da minha vida e sobretudo, por me ensinar a cuidar. Eu, que nem aprendi direito a cuidar de mim, que nunca cuidei de coisa alguma, aprendi a cuidar de quem precisava de cuidado. Errando e acertando. Te dando esporro, uns chegas pra lá, te dando carinho na barriga, ou alisando tuas patinhas, ou te dando todo amor que tive pra te dar.

Agora que a vida mudou, pra mim e pra ele, por essas coisas que acontecem e não se preveem, agora que ele está indo embora da minha casa, meu coração fica apertado e eu choro como se ele fosse um membro da minha família. E é. Ele vai me esquecer, eu sei. Um dia não vai mais saber que fui a dona dele, nem tchuns pra minha cara. Espero revê-lo feliz...e resmungando, claro. Eu nunca vou esquecer. Meu primeiro cachorro. Meu amigo, meu companheirinho. Vai feliz, Ringão, vai com teu dono, ser líder em outro pátio, como sempre vai ser no meu coração

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Amor é divino, sexo é animal


Taquesopariu!
(ok, eu não ando lá muito fina, quem quiser pode se dirigir ao blog da Sandy)
Last night, altas horas da madrugada, sem conseguir dormir e sem conseguir ter um único pensamento edificante, acabei pensando em algumas expressões utilizadas quando se é preciso ser menos vulgar. E no quanto elas acabam por transformar mero prazer em algo tão....chato!

Pratique sexo seguro. Entra carnaval, sai carnaval, tascam na TV o tal slogan. Tá, importante, é sempre bom repetir a necessidade do uso da camisinha. That´s ok. Mas só por conta dessa palavrinha aborrecida, “ praticar”, o lance todo já parece um tédio só. Se você é Sandy como é que saerá que diz que fez sexo? Comos será o papinho entre amigas, todas meigas? Se você não é meiga, diz sim-ples-men-te:
“ Gente, hoje transei horroresssssss”. Ou termo mais impactante, daqueles que por si só já traduzem que o lance foi the best e ponto final. O verbo em questão, praticar, é tão chatinho que só mesmo em propaganda publicitária. E não se resume pra descrever sexo, mas pra descrever qualquer ação. " Pratique o bem",
" Pratique esporte", parece coisa dos Dez Mandamentos. Prefiro dar que praticar, dá licença.

Outra expressão chatinha: Atingir o orgasmo. Pô, que sacrifício! Falando assim a gente até já pensa em desistir, porque vamos combinar que para se atingir alguma coisa, em geral, é preciso algum tipo de esforço. Algumas vezes o que se precisa atingir parece inatingível. Como atingir o Nirvana. Pelo que dizem, deve ser ótimo, mas não conheço ninguém que atingiu, conhece? Prefiro atingir o orgasmo que o Nirvana, é mais fácil.
Manter relações sexuais,  expressão usada nos consultórios dos ginecologistas. Eles adoram te constranger perguntando: “Você tem mantido relações sexuais com freqüência?” Ao que você responde olhando pro teto: “ Sim (ou não, ou uma mixaria aqui outra ali), mas pensando: “Sim, tenho dado pacas (ou não, ou uma mixaria aqui outra ali) Safada. Pseudo-Sandy! Manter relação já parece uma coisa in-ter-mi-ná-vel. Pensa: enquanto você mantiver, o lance não termina. Também, em alguns casos, parece que você está mantendo por obrigação. E sexo por obrigação nem aquela biscate que você detesta merece.
"Desculpa, isso nunca aconteceu comigo”. O que? E justo na minha vez acontece pela primeira vez? Não tem uma que nessa hora não pensa: "Ai, senhor, foi o que será? Ele não gostou da minha calcinha, será que foi alguma coisa que eu disse na hora, será a depilação que não está lá 100% ?". Não daria pra dizerem assim: “desculpa, eu queria tanto que fiquei muito ansioso, também aconteceu isso comigo outro dia, quando peguei a Angelina Jolie”. Ô beleza, culpa nessa hora nem nos passaria pela cabeça, meu filho! Eu prefiro uma doce mentira do que a verdade algumas vezes. A Sandy, não faço idéia.
"amor é latifúndio, sexo é invasão"

Olha ( vem comigo aonde eu for)

Ih, me interna.
Chorei baldes domingo à noite, assistindo “ Elas cantam Roberto”. É, o Carlos. Tudo bem que tem TPM envolvida, aí a sensibilidade já está mesmo à flor da pele. Que outro motivo eu teria pra chorar, já que nem sou fã do cara? Rei pra mim é Chico, Tom Jobim, Tim Maia.  Não gosto do Roberto cantando as músicas do Roberto. Nem daquela coisa TOC, terninho-azul-sapatinho-branco, cabelinho que não muda o corte há 40 anos e “são tantas emoções" e muitíssimo menos ainda da fase "irmãos caminhoneiro Shell" e aquela ôde interminável à Maria Rita. (diós a tenha)

Mas eu já sabia que gostava de algumas letras bem bonitinhas dele (Fera Ferida, Falando Sério, Esqueça, Como Vai Você...) cantada por outras vozes. E as vozes femininas entonces, deram um show. Mulher cantando fica tão apaixonado, tão meiguinho, ou tão Edith Piaf, desesperado, sofrido, lírico, lindinho. E então, porque sempre que alguém diz que ama Roberto eu faço cara de nojinho e porque apesar disso, um dia eu me emocionei to-din-ha com o Rei (á lá), fica aqui o registro. E hoje, de todas, fico com essa:

Olha
Olha você tem todas as coisas
Que um dia eu sonhei prá mim
A cabeça cheia de problemas
Não me importo, eu gosto mesmo assim
Tem os olhos cheios de esperança
De uma cor que mais ninguém possui
Me traz meu passado e as lembranças
Coisas que eu quis ser e não fui
Olha você vive tão distante
Muito além do que eu posso ter
E eu que sempre fui tão inconstante
Te juro, meu amor, agora é prá valer
Olha, vem comigo aonde eu for
Seja minha amante, minha amada, meu amor
Vem seguir comigo o meu caminho
E viver a vida só de amor
http://www.youtube.com/watch?v=A8mWw8hRkKI



quarta-feira, 27 de maio de 2009

Você tem medo de que?



A pergunta era: do que você tem medo? Melhor reformular: do que não tem?

Medo de não amar, de não ser amada, de rejeição ou um dia ter que, finalmente, encarar de frente uma barata. De mudanças inesperadas, de perder minhas caixas cheias de cartas antigas, de ficar antiga, de ficar muito moderna e ridícula, de taxista chato que puxa assunto, de perdas emocionais, de ficar entupida de lembranças, de esquecer, de pular de para-quedas, de ficar paralizada, de olhar e não ver, de ver e agora? Medo de emburrecer, de separações, mesmo as desejadas, de chuva que estraga a chapinha, de tempestade que se anuncia, de gente chata, de gente medíocre, de criança muito esperta, de envelhecer. De ser pra sempre um vaso quebrado, de mentes perigosas, da minha. Da minha. Ah, daria pra parar de pensar? Dormindo? Não, acordada, dá pra parar de pensar tanto? Porque se penso muito, fico querendo encontrar um sentido e aí, as coisas ficam todas sem sentido e, sem sentido, eu morro de medo...

De avião, de morrer de morte súbita, de coisas não ditas que perderam a hora, de coisas ditas que não calaram, de ler a bula dos remédios, de não ler todos os livros que eu queria, de amores impossíveis. De tirar sangue, tomar injeção, tomar pé na bunda, fazer sofrer quem não merece, engordar, não saber quem eu sou. De saber e agora? Dá pra parar de rodar? Como um pião desgovernado, com medo de cessar de girar, cair e nada mais acontecer. E que acontece se não acontece nada?
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Acontece que não quero morrer de tédio, mas também quero jogar algumas fantasias fora. Se possível, todas. Quero ir embora, mas também quero ficar aqui. Aqui, onde fiz minhas próprias revoluções, sem queimar nenhum navio. Aqui, neste mesmo cais de porto. Acontece que eu quero segurança e adrenalina. Segurança e adrenalina.Segurançaeadrenalinasegurançaeadrenalinasegurançaeadrenalina. Medo de estar segura e viajar e ter adrenalina e puxar o freio de mão. Do que tenho medo? De partir meu coração. De não achar respostas pras perguntas inevitáveis. De não evitar as perguntas, de errar o caminho, de ficar muito cansada, de não aproveitar o trajeto, de árvores assustadoramente altas no meio do nada, de fila de espera de hospital, de perder o bonde, de errar o ponto do macarrão, de encher muito o copo e transbordar. E as vezes transborda. Ainda assim, não tenho medo de errar e fazer de novo, nem de ir fundo, trancando a respiração e subir à tona devagar. De gente que não se esconde, se inventa, se transforma e se perde e se encontra. Quinhentas vezes, se preciso. Não tenho medo do escuro, de ficar na contramão, de quebrar meu coração, contanto que isso me revele coisas essenciais sobre mim mesma. E sobre os outros. Não tenho medo de enlouquecer, nem desistir, quando acredito que não vai dar pé, nem de insistir quando tenho alguma fé.

Eu tenho medo de dar vexame, mas já dei alguns. De fazer papel de boba, mas já fiz, de me humilhar, mas já me humilhei. Eu já morri de amor, mas ressucitei.  Na prática, eu sou toda teoria.  Sou viagem, fantasia,  deserto do Saara, vez-em-quando algum Oasis, florzinha no cabelo, medo de ficar louca, faca afiada na língua, mel nos olhos, medo de alucinar, romance água com açucar, palavras, palavras, palavras. Livrai-me das esquinas escuras de mim, porque são elas que me amedrontam, mais do que tudo. Mas deixai-me com todas as ilusões, quero roçar minha boca nas bordas desse copo transbordante, deixai-me com a esperança verdinha, com toda poesia de amor, com toda a minha doçura e as minhas setencentas e cinqüenta mil frases de efeito, porque eu falo muito, mas não digo tudo. O essencial está guardado, quem tiver olhos de ver, verá, quem tiver ouvidos de ouvir, escutará. Mistério preservado, mesmo totalmente nua. Sem medo. E aprender que o verdadeiro streap acontece muito lentamente, dez minutos pra arrancar as meias, vinte minutos pra descobrir os seios, a vida inteira para ver meu coração. Com sorte.Abrir o coração, sem medo.



sábado, 23 de maio de 2009

Eu quero ser dona-de-casa



Deu sol, deu praia, deu tudo certo e tudo errado e o resto é aquela incógnita de sempre. Pra onde é mesmo que eu estou indo? A que horas passa o ônibus que devo tomar, quando é que eu vou chutar essa pedra da estrada? Viver sem fazer planos agora. É que planos exigem disciplina, determinação, paciência e eu estou sem os ingredientes no estoque no momento. E porque é que todo mundo ter um plano? Um plano A, um plano B, um plano de Fuga, objetivos na vida? Ai, isso às vezes cansa! Ó, lá vai a pérola do dia: eu queria viver como se tivesse os dias contados e não desse tempo de planejar nada a longo prazo.
Eu queria dar um abraço na minha mãe e pedir perdão pela eterna falta de paciência, mas não faço. Meus braços permanecem cruzados. E queria poder ficar chocada, não apenas um instante, mas o tempo todo, com tudo que acontece de errado no mundo. Eu queria permanecer de boca aberta, de indignação, mas também sou como toda gente. Não fico chocada tempo o bastante e tempo bastante é sempre! E, se eu vivesse mesmo como se tivesse os tais dias contados, não perderia tanto tempo fazendo joguinhos, usando artimanhas, disfarçando, negando, evitando. Telefonaria se estivesse a fim e não ficaria supondo que fulano vai pensar que sou carente ou muito dada. Enterraria essas velhas táticas imbecis. Eu não ia sair por aí soltando os cachorros não,  só ia ser menos falsa. E mais corajosa, talvez. Às vezes esperamos demais pra fazer o que precisa ser feito, como se o tempo estivesse inteiro à nossa disposição. Ou então não é com a gente, trabalhamos nos bastidores. Mas eu quero estar no palco algumas vezes, quero sim. Ser a protagonista, a anti-heroína. Tess D´Umbervilles, sem um final trágico. O que mais eu desejo? Anos de indecisão! Não sei o que eu quero,  não com aquela certeza que te faz seguir em frente, chutando as pedras do meio do caminho. Só sei que quero, quero, quero...alguma coisa, com uma sede absurda.

Sou estranha e insatisfeita. Nunca sei se quero que gostem de mim pelos meus seios ou pelas minhas idéias malucas. Se por acaso é por um, fico doida que não seja pelo outro, e vice-versa. Ah, mas tem uma coisa que eu sei que eu quero, aliás, acabei de me decidir! Quero ser dona-de-casa, assim mesmo, bem na contramão da evolução feminina. Ser sustentada, ó que delícia! Fazer muito cursinho à toa, pintura em porcelana, pintura em acrílico, pintura na puta-que-o-pariu! Massagem, depilação, análise. Estarrar-me em frente à TV pra ver a sessão-da-tarde e quando ele chegar, supondo que exista um " ele", correr pro abraço. (vou estar ajeitadinha, vá lá, prometo!). Essas feministas ferraram com a gente, eu porque não conheço nenhuma, senão metia a mão! Pra que mandaram a gente estudar, fazer faculdade e ficar inteligente? Eu quero é perguntar: "Ei amor, me diz em quem eu devo votar? ahahaha.
Eu quero ser burra! Burra, alienada e completamente feliz, dá licença! Ao menos por uns dias.
Tá, tá, eu sei, eu sei

Tudo, menos poesia....

Balada Triste


Não que eu não perceba o sol batendo de frente na minha cara

eu fecho os olhos pra não ver a desordem ao meu redor

Com medo de mudar.


Não que eu não sinta a palma úmida de minhas mãos se escondendo

eu estou só procurando um lugar pra largar esse copo

Me derramar.

Não que eu não veja essa poeira se acumulando sobre os móveis

essa poeira é o passado

O " ontem" que não consigo apagar.


Não meu amor,

não é que eu não ligue pras feridas abertas do meu coração

É que já me acustumei com a minha dor

e sem ela me sinto só.


Não é que eu queira piedade

nem é que eu precise chorar

É só essa noite, essa lua

esse gato miando no telhado ao lado


É só esse vinho, essa veia

Essa mesma música tocando sem parar


Que eu não percebo

que eu não percebo.

Amante

Que um dia ela virá
mas não seja agora.

Que ainda um tempo de gritar que não.

Eu lhe darei flores e a minha alma
e ela me ensinará a prosseguir
mesmo sem fé alguma.Virá com sua roupa de festa e tão bonita!
minha velha-amante a reclamar seu posto
Tão bonita que o devolverei a ela.

Minha alma o seu lar
Minhas lágrimas, fonte a matar sua sede infinita
Não a quero, mas ela virá.

Então vêm, amiga. Deita em mim teus estoque de arrependimentos
E descando em teus braços toda melancolia que me trazes
Doce...
Como doce é a pronúncia do teu nome
Que é só TRISTEZA
( sem sobrenome)


Que um dia ela virá
Mas que haja luta.

Que nenhuma lição seja aprendida sem antes uma grande batalha
mas que não seja ainda.

Que ainda uma canção a soar peloc aminho
Onde plantei os sonhos de outrora
E possa,com minhas mãos, ( forte, mas delicadamente)
um a um recolhê-los

Que ainda um coração que os comporte

Oração


Cruzar as fronteiras do teu esquecimento

Arrancando as vestes do tempo estagnado no coração

Dizer besteiras românticas

E sem sentido


Para que as ouça novamente

Sem sentimento

Ou sem ação


Extender impúdicas injúrias

De apaixonado


Para que possas podá-las com tua foice

Arrependimento

E com a mão


Fazer com que sonhem contigo às estrelas

Que tenho ouvido


Chorar teu acalanto meigo

Ao firmamento

E à razão


Mas não terminar

não terminar

Não.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Mãos-Dadas


Faz tempo que não temos mais 20 anos...
Estamos mesmo ficando velhos e ridículos como nos supõe os olhares de outros “ridículos-velhos-casais”? Você sabia meu querido companheiro, que se riem de nós, se acaso roças a mão mais demoradamente na minha, enquanto eu te passo o pires e a xícara na mesa do café da manhã? Já dobramos o Cabo da Boa Esperança e dizem que não nos ficam bem estes furtivos olhares, trocados ao longo do dia. E que é tolice irmos ao cinema ver um desses filmes proibidos aos menores de 18 anos, e comer pipoca e dar risadinhas, e voltar para casa só depois da meia-noite, andando pelas ruas de mãos-dadas.


Ah, se eles soubessem (mas não sabem) que este meu andar desparelho não é só reumatismo, mas é que ando tão embriagada de vida que tropeço, ando e volto a tropeçar, sempre amparada por todos os sonhos que ainda posso realizar. E se soubessem ainda, que ao chegarmos em casa, acendemos todas as luzes, como se todos os lustres fossem candelabros em um luxuoso salão de bailes e ouvimos músicas antigas como se fosse o último rock das paradas de sucesso.


Se eles soubessem que ao nos despirmos enxergamos cada poro e cada vinco um no corpo do outro. E nos beijamos com nossas bocas murchas e o nosso beijo tem gosto de banana madura com dentes rangendo. Rangem nossos corpos, magros, range nossa cama, que não trocamos faz bem uns quinze anos. E nossos corações descontrolados lá dentro, já nem batem, rangem apenas.
E se eu te perguntar de repente, companheiro, se estou mesmo muito velha e muito feia e muito louca, tu me dirás sorrindo que não. Dirás que estou linda assim: cheia de sonhos, rugas e cabelos brancos. És o gentil e prometido cavaleiro com o cavalo branco das histórias encantadas que vieram antes de nós. No entanto, meu velho, sei que estarás mentindo pra mim, pois nossa verdade declarada é o amor que restou, apesar do tempo que gastamos.


E se tu me perguntares (embora não pergunte), eu te direi que sim, que sinto por ti o mesmo singular carinho dos tempos de outrora,mas saberás que estou mentindo também. Mudamos todos nós, os sentimentos, os caminhos e as veredas. O impressionante é continuarmos. E na mesa de um café da manhã qualquer, olharás rindo para mim, rindo de escancarar os dentes e dirás: “ Minha velha, faz tempo que não temos mais 20 anos...”
Minha Namorada (Vinícius de Moraes/ Carlos Lyra)

Se você quer ser minha namorada/Ai que linda namorada/Você poderia ser
Se quiser ser somente minha/Exatamente essa coisinha/Essa coisa toda minha/Que ninguém mais pode ser

Você tem que me fazer um juramento/ De só ter um pensamento/Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho/De falar devagarinho/ Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho/E chorar bem de mansinho/Sem ninguém saber porque
E se mais do que minha namorada/Você quer ser minha amada/Minha amada, mas amada pra valer/

Aquela amada pelo amor predestinada/Sem a qual a vida ‚ nada/Sem a qual se quer morrer/
Você tem que vir comigo/ Em meu caminho/ E talvez o meu caminho/Seja triste pra você
Os seus olhos tem que ser só dos meus olhos/E os seus braços o meu ninho/No silêncio de depois
E você tem de ser a estrela derradeira/Minha amiga e companheira/No infinito de nós dois

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Ok, vocês venceram


Trabalhando. Duas da tarde. Desci pra fumar um cigarrinho. Atitude essa que é “condenável” em tempos onde as liberdades individuais estão sendo massacradas em nome de um bem coletivo. Dizem. O blá blá blá de que o trabalhador fumante gasta um tempo considerável de seu rendimento tragando a "Deusa do Mal" da nicotina. Desci. Fumei. Gastei o tempo precioso da minha empresa. Vinte chibatadas. Traguei. E estou lá, felizinha da minha vida, quando uma senhora muito lindinha, muito lourinha e muito arrumadinha aparece do nada, segura no meu pulso e quando pensei qeu ela iria me pedir uma informação, ela diz simplesmente: "Linda você, pena que fuma”. Ah, mas foi tão delicada no falar, no tom de voz, tão gentil no tocar o meu pulso pra ganhar minha atenção, que resolvi aliviar com uma boa notícia: “É por pouco tempo”.

- "Que bom"-disse ela.

Duas semnas atrás, saí de uma sessão de terapia daquelas arrasadoras, sobretudo para quem já se encontrava arrasada, quando resolvi sentar nos degraus de uma escadaria e, eis que estava lá, tristinha da minha vida, quando um senhor muito bonitinho, com a aparência muito fragilzinha com a sua bengalinha, parou na minha frente e disse: “Moça, você devia largar isso” . O que? O cigarro ou a tristeza?

-É, eu sei, - respondi com meu sorriso mais doce, enquanto ele me contava que há 30 anos decidiu largar e que hoje, z se não o tivesse feito, talvez estivesse não de bengala, mas possivelmente, morto. Enfim. Uma sábia escolha pessoal.

Agora é assim: você quer fumar? Insiste nisso? Mesmo que aumentem o preço do teu vício, mesmo se somados os gastos com o cigarro você pudesse comprar um carro no final do ano? Entao agüenta as consequências, as de longo, médio e curto prazo. As de longo e médio todo mundo já conhece, até porque estão lá no verso das malditas carteirnhas. E as de curto são essas sangue bom (não tao bom) . Abençoados os velhinhos gentis, que ainda te chamam de linda pra te fazer refletir. Mas o restante dos não-fumantes do Universo estão nos matando de tédio, tao lentamente quanto fazem as 6 mg de alcatrão, as 6 mg de nicotna e os 8 mg de monóxido de carbono que a gente ingere quando nos dá na veneta.

Acham que a nossa vida é moleza?

Outro dia eu devia ter fumado uma carteira, andava na rua, bem distraidamente, quando passa uma mulher e seu filhinho e ela dispara na minha cara (!) : "Credo, que nojo esse cheiro de cigarro!". E eu fiquei ali, pasma, com aquele vai-pro-diabo-que-te-carregue-sua-filha-de-um javali-horroroso, entalado na garganta. E no elevador? Fazem cara feia. Eu não faço cara feia com quem nitidamente esqueceu de passar o desodorante pela manhã, pelamordedeus! Em outra ocasião, joguei uma gimba de cigarro na rua (tá, isso foi feio, muito feio) e a mulher me olhou bem nos olhos com cara de quem estava me acusando de assassinato! Fiquei p. da vida, juro! Queria dizer: "Volta aqui já sua louca, jogo o que eu quiser onde quiser, porque quem está com coração partido pode tudo, estou me lixando com a rua, aliás estou me lixando com o Planeta Terra, com a economia de água, com a reciclagem do lixo, com a poluição sonora, com a pobreza da Índia. Vai te catar! Ahahahhaha. Eu tava doida, é verdade, muito mais do que ela.

Atualmente sou uma fumante em fase de transição. Parei de ser feliz há quatro anos porque me encontrava naquela idade em que anos de sedentarismo e algum bom senso (sem falar nas estatísticas) te fazem perceber que se é mortal. Então fumava e sentia uma taquicardia (imaginária) que representava o princípio de uma fulminate e mortal ataque cardíaco. Sabe como é, possuo uma mente muito sugestionável, o que imagino passa a ser, sem volta. Pânico. Assim sendo, fui pararno hospital umas três vezes, incluindo a noite de um aniversário porque queria porque queria fazer um eletro. Fiz. Nada a declarar.
Tudo bem, ficamos doentes, ocupamos os leitos de hospitais que podiam ser destinados a outros tipos de doetes, a Saúde gasta rios de dinheiro com gente do nosso tipinho. Estão proibindo o maldito em todos os cantos do Planeta, somos tratados feitos os comunistas de antigamente, somos uns idiotas que não ligamos pra nossa própria saúde, vamos morrer lentamente e o pior de todos os crimes: estamos matando os passivos do mundo. Ö senhor, que cantos do inferno será que iremos ocupar por tamanha falha de caráter?


Ok, ok. Me rendo. Vocês estão vencendo esta guerra. A patrulha anti-tabaco e suas leis e caras feias estao aos poucos nos matando de vergonha e humilhação. Guardem suas armas. O mundo enfim, vai se vendo livre de nós e se tornando cada vez mais, um lugar chatinho de se viver. A liberdade individual de vocës se entupirem de linguiça toscana, elevar suas taxinhas de colesteróis a níveis estratosféricos e ocupar o seu leito de hospital está garantida. Amém.

Para deixar de fumar, disque saúde:


080061 1997


Ou viva e morra como quiser.





sábado, 2 de maio de 2009

32 anos (40 graus ao sol, 39 graus à sombra)


Bem-Vindos 32 anos. E me identifico com a "Brigite Jones e seu diário", com a solidão cultivada de Hilda Hilst e a Clarice Lispector em: "A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver." Talvez tivesse hoje um filho, uma casa baguncada e um marido chamado "amor". Talvez tivesse me separado. Quem sabe tivesse engordado e não pintasse as unhas de cores fortes. Talvez tivesse sido feliz. Talvez nao. Mas não penso nas escolhas que não fiz. Penso nas que ainda faço.


Quando irei querer pertencer, juntar, dividir? Não sei e os porquês ocultos, aqueles que não consigo ver, talvez sejam justamente os mais importantes. Feliz e infeliz, como toda gente.Tantas pessoas que passaram, tantos momentos. Que bom que beijei 450 bocas e levei puxada de tapete, dei uns tapas na cara, amei, desamei, tentei amar, tentaram... Sonhos que se realizaram e que morreram na praia. Que bom que fui doida, inconseqüente e que nunca passei dos limites que eu mesma me impus.Já acordei com ressaca moral, mas também extasiada. Alguns arrependimentos, mas que só chamo assim porque aconteceram, tiveram que acontecer pra receber esse nome, senão seriam chamados de nada. Amor com Lennon e Mcartney, ao som de "All You need is love". E o dia amanhecendo e a gente ainda vestidos de noite, pedaços de maquiagem que restaram, roupa amassada, sorriso feliz e uma lua suave, chegando em casa.


Não envelhecer irremediavelmente sem ter passado por algumas situações constrangedoras que viram gargalhadas quando comentadas com as amigas antes de dormir e "não ri tão alto que o vizinho já vai reclamar" Não sei rir baixo, nem baixo sei falar. Amor? O amor teve seus nomes, alguns Paulos, Rogérios, Ivans. E no final, o amor pergunta: E agora? E agora, enquanto o amor não vem...que venha o que vier.

Um pouco de mau humor, embora seja bela a vida

Um sol deste tamanho lá fora e eu aqui, quase indo trabalhar. Mas um fim de semana desses e eu me mato. Aliás, já falei das minhas idéias suicidas?Quando eu era jovem eu imaginava que se nao me cassasse até os trinta, eu ia me matar. Não pelo casamento, mas pelo fato de não amar ninguém. Muito depois li um livro (Susan morreu, mas continua morando em Nova York) e a Susan era eu. Uma literatura entre trágica e cômica, porque eu lembro que gargalhei e chorei o livro inteirinho. A doida tinha essa mesma idéia e tentava colocar em prática. Mulheres são seres infelizes. A gente lê contos de fadas demais na infância e depois, na adolescência, já começa a se preocupar com coisas idiotas como estrias e celulite e aí, casa com alguém que vai ficar gordo e careca. Nao tem o menor sentido. Eles se preocupam com o tamanho do pau, a gente com o tamanho da bunda e assim caminha a humanidade.
Eu quero descer, já! Agora que eu fiquei irremediavelmente mais velha e mais chata eu dei pra achar todo mundo chato também. Chato de suspirar. Eu que costumava achar todo mundo "um barato de pessoa". Outro dia, numa festa à fantasia, sentou um Jedi ao meu lado, com espada de luz e tudo mais. Ele era divertido, parecia inteligente e adorei quando ele comentou que "reggae e rap eram tudo a mesma merda". Abri um sorriso quando ele cantou Chico e lembrei de agradecer em pensamento -" Deus é Pai" -, mas foi comentar com um amigo que o carinha parecia legal pra ouvir: " legal sim, é gay". Comentário dito politicamente correto, sem o "mas".... ("Legal sim, massssss é gay). Darth Vader é gay. Pode? Como diz uma amiga minha, o mundo é gay. Oscar Wilde, aquele pintor famoso, como é o nome? Era o Da Vince que era gay? E o Rock Hudson, Aquela Coisa. O Montgomery Clifft e Deus nos perdoem, mas até o John Wayne era gay. O Fred Mercury, que eu amo de paixão e sempre me deixa triste. Docemente triste. Meu melhor amigo é gay. E dizia que se nãoo cassássemos, ele com outro homem, eu com outro homem que não o dele, nos casaríamos aos trinta anos. Ele só tinha essa opção e eu, como já mencionei, tinha a do suicídio.
Temos ambos 32. Ah, nem olha pra mim, eu me matar por causa de homem, quer dizer por causa de falta de homem? Muito antes disso eu viro sapata. O mundo não é gay? Pois é, eu nunca quis fazer parte de nenhuma minoria, embora admire algumas. Eu preferia ser americana, obesa, paranóica e me sentir a dona do mundo a ter nascido na Somália, vão me desculpar! Se a maioria é gay, entrego-me! Mas eu vou contar uma coisa: mulher tem essa mania de dizer que vai virar sapata quando algum homem "mau"a magoa ou quando estão na fase das vacas magras , mas eu não sei porque elas pensam que isso seria a salvação da lavoura. Gente, com honrosas exceções as sapatas são uns canalhas de saias, nãoo muda nada. Elas também mentem, enganam, dizem que vão tomar um choppinho com as amigas "Irmãs Caminhoneiras Shell" e o pior é que nunca se sabe quem é amiga, quem é comparsa, ou quem é a "outra". Dá um tempo! O mundo é gay e cafajeste.
Já estão se matando corajosas meninas solitárias na faixa dos trinta? Não dá pra esperar até chegar aos quarenta que é quando a coisa realmente piora? ahahahahha. Eu ando tão mal humorada! Liga nao rapaziada, "no mais" a Vida é Bela, ao menos na visão do chatérrimo do Roberto Benigni e aquele filmeco horroroso que ele fez e levou um Oscar. O Oscar é gay e injusto, como a vida às vezes é bela, vá lá....

Sejamos delicados

Ele veio me dizer que anda decepcionado com as amizades. Com as relações de hoje em dia, tão superficiais, tão substituíveis. Ele só tem vinte anos. Eu precisei chegar aos trinta para me dar conta de que os amigos que me acompanharam na escola, na faculdade, na formatura, no primeiro emprego, no casamento da fulana, na separação do sicrano, já não são os mesmos.Que eu não sou a mesma, embora me reconheça mais do que reconheço a eles, mas isso apenas porque convivo mais comigo. Amizades de longa-data, que já viram as primeiras rugas um no canto dos olhos dos outros não deveriam excluir nunca aquela gentileza do início. Mais se perde isso e põe-se no lugar o que alguns chamam simplesmente de "sinceridade". Eu, graças a Deus, nao sou dessa espécie de "a verdade-acima-de-tudo". Aprecio que ela venha em doses homeopáticas e seja servida como aquele remedinho de gosto horroroso que os pais dão às crianças, com aquele carinho extremo, fazendo aviãozinho com a colher até que ela chegue na boca.
E em nome da sinceridade entre amigos, ofende-se (sim, sempre em tom de piada), magoa-se, colocam o dedo naquela sua ferida há tanto tempo esperando cicatrização. Ah, meus bons e velhos amigos, quando foi que perdemos a doçura e porque foi mesmo? Ah quanto tempo apontamos nossos defeitos e não nos damos de presente uns aos outros, um elogio daqueles de ficar com vergonha porque está correndo o risco de uma lágrima desabar ali no cantinho dos olhos, uma festa-surpresa, um "que bom que você veio", fico feliz por você ter trepado loucamente esta noite toda". Devo estar nostálgica. Ou aqueles que têm amigos antigos e queridíiiiiiiiissimos há "enta" e poucos anos e bebem no mesmo copo a mesma cerveja, ou a mesma torta no chá da tarde, dirão que isso nao é amizade, e que sim, bota fé na humanidade garota, amizades profundas e insubstituíveis ainda tem lugar nesse lugar estranho e lindo que é nosso planeta. (embora às vezes tão mal freqüentado).
Eu sei, eu sei...Isso já foi amizade, ainda é. Só está parecendo a roseira mais descuidada do jardim, ninguém se lembra de regá-la, a começar por mim. Fica igualzinho aqueles casos de amor, tão promissores no inicio, tão cheios de "meu benzinho-amarei-te-eternamente." Cheio de palavrinhas antes e palavrões depois. Ele não elogia mais o vestido novo dela, ela não diz mais do imenso orgulho que dele sente. O sexo ainda é muito bom e os corações não se entendem, nem falam. Amizades são casos de amor. Alimentemo-nos uns aos outros, pois pode ser que a estrada já não seja a mesma, mas grande parte dela percorremos juntos. Reguemos as nossas flores, sejamos cuidadosamente delicados.

Pro mundo fazer sentido


Ai meus sais, eu preciso mesmo me apaixonar. Pra certas músicas passarem a fazer sentido.Eu quero me apaixonar pra sair com umas amigas e elas ficarem desenhando corazõenzinhos no ar, pra eu rir. Mas ele vai precisar saber dançar. É essencial. Mas até que bom caráter. Um bom malandro, mas que saiba dançar, assim, juntinho, num forró ou gafieira e que se se tirar uma amiga minha pra dançar não me pareca ridículo ou desengonçado, ou eu broxo. E se broxo, vão me desculpar, nunca mais levanto! Quero me apaixonar pra sair mais cedo da festa, com aquela desculpa de que preciso acordar cedo no outro dia, mas sabendo que não vou dormir. Acho o máximo do chique. E praquela homarada do trabalho parar de ficar me chamando de "gostosa"a cada vez que eu passo, só porque acham que podem porque eu não tenho namorado. Ó, prestatencão (!), eu quero ser gostosa, mas daquelas que impõem respeito, sabequalé?


Eu quero me apaixonar pro cara saber todas as combinações possíveis que faço com minhas roupas e notar que tenho um tamaquinho lindo, do mesmo modelo, um em azul e outro em vermelho. Eu quero me apaixonar porque é ruim, mas é bom. Assim como cigarro, só que eu quero parar de fumar, porque o médico disse que se eu não parar "babau" e quero começar a amar, que é pra viver muito ou ao menos, in-ten-sa-men-te. Ou morrer de ansiedade.


O melhor da paixão é comigo mesma. Eu fico irremediavelmente romântica, eu leio poesias e todas foram feitas pra mim, me dá vontade de estar sempre ouvindo Vinícius e Tom Jobim, ou seja, culturalmente a paixão faz por mim o que nenhuma educadora conseguiu. Eu vejo filmes e torço pelos finais felizes, porque quando estou só, acho lindo os finais tristinhos, por pura identificação. Eu quero me apaixonar, mas esse "querer" é paciente, porque a paixão precisa acontecer qdo eu estiver distraída, qdo eu estiver esquecida de que "quero". Tem que parecer casual, inesperado, "sem querer". Eu preciso me apaixonar pro mundo passar a fazer sentido. Mesmo que continue não tendo, sem ilusões.


Eu fico mais bonita, se não fico, me acho, se me acho, me acham, quer dizer, começam a aparecer propostas e oportunidades de tudo quanto é lado, aí paro e penso se escolhi certo ou se é certo escolher um único privilegiado e fazer tantos outros infelizes. E aí o cara pressente a dúvida e fica inseguro e ele fica tao bonitinho inseguro que a dúvida some. É só ele que eu quero, não se sabe até quando, mas tem uma frase de uma música do Chico que eu gosto muito que diz :


" Prometo te querer até o amor cair/ doente/doente.....prefiro entao partir a tempo de poder/ a gente se desvencilhar/ da gente..."


Eu quero me apaixonar pra não ficar estressada com coisas muito pequenas. Minha chefe me enche o saco e ao invés de pensar que vou ter uma úlcera de tanto engolir palavrão, eu simplesmente penso sorrindo: "eita, que essa mulher esta precisando trepar". Amor deixa a gente benevolente. Com gente chata, com gente mesquinha, com gente feia, com gente infeliz. Quero passar hidratante nas pernas com mais atençao. Então, eu preciso me apaixonar pra indústria dos cosméticos começar a ganhar dinheiro comigo. Eu preciso me apaixonar pra andar de mãos-dadas, porque essa foi a melhor coisa que inventaram no mundo, depois da energia elétrica. Mãos-dadas passa um recado pro resto do mundo que eu adoro , ainda que o resto do mundo esteja se lixando pra isso: "Ele é meu-ela-é-minha" e eu sempre me amarrei nos adjetivos possessivos. 'Meu" é minha palavra favorita depois de "suburbano". Sofrer? Por excesso, nunca por falta. Paixão é complicada no início, fica dificil no meio e é terrível no fim, mas eu prefiro ir à festa, mesmo sendo ela chata, do que ficar vendo TV em casa. Eu preciso me apaixonar pra festa começar.


Todo Sentimento

Chico Buarque


Preciso não dormir

Até se consumar

O tempo

Da gente

Preciso conduzir

Um tempo de te amar

Te amando devagar

E urgentemente

Pretendo descobrir

No último momento

Um tempo que refaz o que desfez

Que recolhe todo o sentimento

E bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer

Até o amor cair

Doente Doente

Prefiro então partir

A tempo de poder

A gente se desvencilhar da gente

Depois de te perder

Te encontro, com certeza

Talvez num tempo da delicadeza

Onde não diremos nada

Nada aconteceu

Apenas seguirei, como encantado

Ao lado teu


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Para Daniel Théo

Uma noite dessas fui ao encontro de um menino adorável em seus recém completados vinte anos, que estava precisando muito desabafar com alguém. Havia finalmente cedido aos apelos de uma fotógrafa que lhe convenceu ser bonito, fez um "book" gratuitamente e apostou que ele chega até Milão. Eu aposto também. Ele tem um rosto lindo e uma boca dessas que se você vê sabe que é extremamente beijável. Pois ele estava se sentindo ridículo por ter estado lá, "não-sei-quantas-horas" a mudar de roupa "não-sei-quantas-vezes" e a fazer caras e bocas. E na inocência dos vinte anos acha que está a atraiçoar os ideais em que acredita. Ele tem uma banda que só toca Beatles, ele ama Beatles, eu amo Beatles, só que nunca tive porra de ideal nenhum. O que eu iria dizer ao garoto?
Eu queria ter nascido linda. Linda de doer. Linda como ele, num dia de verão na praia, com seus óculos escuros e os cabelos desgrenhados. Tão lindo que não resisti e corri para beijá-lo. Linda pra poder andar na rua desarrumada, como ele, com calça jeans surrada e camiseta furada com a estampa do MST. Linda pra somente piscar e um exército inteiro perder a guerra. E não precisar dizer frases espirituosas. Tão linda que ninguém se importasse se numa conversa D.J Sallinger fosse citado e eu retrucasse: "quem?". Está bem, assim fica parecendo que eu sou dessas feias que acham que toda linda é burra. Eu não acho, assim como não acho que toda feia seja inteligente, assim como não me acho feia nem inteligente, assim como é coincidência que só neste momento eu não consiga achar o nome de uma linda-inteligente...ahahhahaha. Se alguém lembrar de Clarice Lispector agora, arrasa minha crônica! Posso estar atravessando o meu samba até, mas só quero dizer que se me fosse dada a oportunidade de escolher (e a vida não é feita de escolhas caros existencialistas?) entre ser linda e burra ou feia e inteligente, se só houvessem essas duas dolorosas opções, sem meios-termos e mais nenhuma, eu escolheria a primeira. Linda, burra e com uma boa e grande de uma bunda, já que nasci no país em que ela reina absoluta. E eu ia felizinha lá para o "Big Brother" metida em biquinhos cavados, sim senhor! Não me diga que estou atraiçoando meus ideais, porque eu já disse que nunca tive um, não que eu me lembre agora. Quem quer ser inteligente num país onde pagam 300 mil pra gente mostrar apenas a nossa bundinha na revista? Não fica mal por ser bonito demais não, meu lindo, até a tua hesitação é bonita. Antes de ir, canta "All you need is love" pra gente, com teu visual mais escrachado. Se não te clicarem, eu te clico. Se teu destino enfim, não for Milão, ruma direto aqui, pro meu coração.

NOBEL DA PAZ: se nao tem pra quem dar, cá estou!

Eu estou recolhendo assinaturas (principalmente no Afeganistão, mas creio que os somalis irão aderir também) para um abaixo-assinado reinvidicando que conste o meu nome na eleição para a escolha do Prêmio Nobel da Paz de 2001. O ano em que tudo aconteceu. De ruim. Os EUA literalmente vieram abaixo, matam uns cinco ou seis mil afegãos, que um em seis mil pode ser (Oxalá, Alá!) o Bin Laden, a Argentina quebra, o Sílvio Santos é seqüestrado, putzgrila! Só comigo é que não rolou nada, nem uma adrelinazinha.
Não fui promovida, não fui sorteda pro Big Brother. E não fiz nada para merecer o Nobel da Paz, confesso. Mas também tanto faz, num ano em que entre os nomes indicados constam o do filhinho de papai, George Bush Filho, Presidente dos Estados Unidos da América e Contra o Resto do Mundo e o do Primeiro-Ministro inglês,Tony Blair. Eu votava no Toninho como um dos poderosos mais sexy do mundo, juro! E no Bush não votava nem pra síndico do meu prédio, juro também! Alguém pode me explicar, de modo razoável e, se possível, bem devagar, pra que eu entenda, o que é que esses dois fizeram em 2001 ou no restante de suas vidas em nome da paz? Desculpai-os Madre Tereza de Calcutá, Martin Luther King, eu lhe rogo, eles não sabem o que fazem!
Se for algo do tipo: "nao sabemos pra quem dar, vamos dar pra qualquer um", por favor, dêem o Nobel para mim, eu nunca ganhei nada, nenhuma "linha"em bingo, nem um ursinho no tiro-ao-alvo, nem uma outra raspadinha ao raspar a raspadinha, please!!!! E se for por merecimento, peço que me perdoem a arrogância, mas ao lado do Bush ainda sinto que levo a melhor. Eu AJUDEI uma velhinha a atravessar a rua aos 13 anos! Eu sempre me ofereço pra segurar as sacolas de quem esta em pé no ônibus, eu choro no final do Incrível Hulk! E se eu não fiz nada pra merecer o Nobel, se eu nunca promovi a paz no planeta, no mundo, no Brasil, no meu estado, na minha cidade, no meu bairro, quiçá na minha casa, também não saí por aí fazendo guerras e me metendo na guerra dos outros. Sou mais eu!

Jeanie é um gênio


Quando eu era pequena eu queria ser a Jeanie. Aquela que era um gênio. Como era bom sonhar que se podia jogar o rabinho de cavalo pra frente e realizar todos os desejos. Estar em qualquer parte do mundo, com as roupas mais bonitas e resolver todas as trapalhadas com um passe de mágica. Ela era meio medrosa, meio patricinha, até meia burrinha, mas ela tinha o Major Nelson, aquele gato! Outro dia vi na TV, num desses programecos onde ressuscitam os mortos, ela, a atriz que interpretava a minha ídola infantil. Cheia de rugas e lágrimas, duzentos anos depois. Vida dura a da mocinha. Vida dura essa de quem não tem um rabo de cavalo que balança pra frente e resolve tudo. Dois casamentos fracassados, pouco sucesso depois daquele papel, que só durou cinco anos e um filho que morreu por overdose de drogas. E daí? Dezenas, centenas de mulheres apanham dos maridos, não conseguem ser nada na vida, filhos morrem todos os dias. E daí nada, mas foi como descobrir que Papai Noel não existe em uma idade em que isso já não tem a menor importância.


Coitada da Jeanie, mas se eu tivesse um rabo de cavalo e um narizinho arrebitado capaz de realizar meus desejos, eles seriam inúmeros. E todo dia, após um desejo realizado, talvez eu morresse de tédio. A vida totalmente facilitada, entregue numa bandeja não teria muita graça. Mas se eu pudesse satisfazer apenas a um desejo, gostaria de pedir um fone de ouvido, que me falasse mais vezes com a voz que vêm do meu coração. E então talvez ela tivesse me dito ao longo destes anos: "Saia dessa casa, mude de lugar a cada três anos, fique um longo tempo sozinha, depois reúna-se, partilhe, sempre. Seja menos auto-crítica, aprenda a odiar sem culpa algumas vezes. Acorde mais cedo, aprenda a fazer café. Cure uma a uma suas mágoas. E as que não curarem, apenas deixe lá. Não pense tanto, faça planos, mesmo bobos, desista de alguns, mas leve outros adiante. Não seja tão preguiçosa, não sinta tantas saudades do que já foi. Não tenha medo, ao menos não esse que paralisa.


Cante mais, dance mais pela casa, como fazia antigamente. Não sinta pena de você, não beba champanhe que esse negócio te deixa enjoada. Aprenda a impor respeito, mas não sendo grossa, que essa não é a maneira correta. Sorria mais, dê mais gargalhadas, cozinhe, borde, olhe mais pras suas mãos. Mexa-se mais, ame mais, ame melhor, aprenda a ter nexo e a gostar de Natal. Ouça mais samba, samba te deixa leve, te anima, te acende. Leia menos poesias, não tape seus buracos com fantasias. Não sonhe demasiado, ouse, planeja, faça. Diga "eu te amo" pra sua mãe, ao menos uma vez. Ao menos uma vez aprenda a ouvir "eu te amo", sem sentir o peso da responsabilidade. Esqueça.


Faça mais festas de aniversário, reúna -se com seus amigos e não fique tão triste se as coisas e as pessoas mudarem. Mude. Entenda. Dê de ombros mais vezes. Não fume demais, não durma demais. Veja mais manhãs durante a vida. Reclame menos, tire mais fotografias, de você mesma, de seus pais, seus irmãos, seus amigos. E de pessoas e lugares que você sabe que dificilmente irá rever de novo. Guarde todas as suas cartas de amor. As enviadas e as recebidas. E não as leia senão muito tempo depois. Vá em frente, prossiga, andando sem parar, mesmo sem fé alguma. Imagine um ponto de chegada, mas se não chegar, curta o trajeto, a paisagem, o clima e o cansaço. E não se preocupe tanto com o que virá. O futuro nunca chega, ele esta sempre por vir.

Debaixo do tapete

Ela conversava, já não lembro sobre o quê, mas uma frase sua me ficou na cabeça: "Sabe essas coisas que acontecem e que a gente não consegue acomodar em lugar nenhum?". Gostei logo desse "acomodar", mas não soube o que dizer. Ainda não sei. Porque quanto mais eu penso, quanto mais lembro de coisas que me aconteceram, ou que aconteceram com outras pessoas, quanto mais penso em coisas que acontecem todos os dias, mais eu penso que eu consigo acomodá-las sim, em algum lugar. E se parece que não cabe ali, cabe acolá. E se parece que não tem mais espaço, um lugar se abre, ou se expande, ou se inventa lá dentro e sempre, sempre se acomoda. Eu me acomodo, deve ser exatamente por isso que as tais coisas acabam cabendo em mim.
Eu vejo tanta coisa e nada é novo, nada é absurdamente espantoso, nada é maravilhosamente surpreendente, nada é chocante a ponto de paralisar. Fui eu quem ficou assim? Os lugares em mim que retêm aquilo que vejo, que sinto, comportam tudo isso, mas se sofro, é com um conformismo que não sei de onde nasceu. Só sei que não deveria ter nascido. Se eu amo, sei que vai passar, porque é só virar a esquina e vou encontrar um amor maior, mais bonito. E se me amam, ali na esquina tem alguém melhor, mais bonito. E se choro não é mais de surpresa, é porque "ah, eu já sabia... eu já esperava...". E se alguém bota fogo num mendigo eu abro a boca, indignada, mas me levanto pra buscar uma coca-cola na geladeira e quando volto já estou dando risada, de uma outra história qualquer, alguém mudou o canal da televisão. E tudo passa, tudo sempre passa. Mas não devia passar.
Eu fico aqui, querendo conhecer uma vista mais bonita que esta da minha janela e a vista que eu tenho daqui é linda, só que já me acostumei com ela. E o carinha nem é tão bonito, porque eu sei que ele tem orelhas de abano que o cabelo acaba escondendo. Eu nunca posso ver as orelhas (porque o cabelo sempre esconde), mas eu sei que estão LÁ, então ele não é tão bonito assim. Eu me engano. Pra caber. E tem louco pra tudo no mundo, eu vou me chocar com que? Eu agüento, eu absorvo, eu até justifico algumas vezes, pior que isso: eu aceito.
Eu guardo coisas velhas nas gavetas, eu guardo coisas desnecessárias no meu coração. E você vai dizer que não, que você não (!), que você ainda não se transformou nesse serzinho desprezível, conformado, comum, acomodado, mas dá uma olhada direito, com mais atenção. Respeito a todos os que são diferentes, aos que são iguais a mim sou indiferente. E o que se varreu pra debaixo do tapete ainda está lá, não se pode ver, mas é um lugar dentro de gente, acomodando essas coisas, todas essas coisas que acontecem.