sábado, 2 de maio de 2009

Aurora

Um dia desses amanheci com vontade de já estar velha. Velha, no melhor sentido que essa palavra pode ter. Sempre gostei de coisas antigas, gastas, usadas, constantemente e bem usadas. No sentido de útil, claro! Velha e realizada. Ou velha e frustrada por uma porção de coisas que deixei de fazer. Velha e feliz por ter sobrevivido à vida. E deixar de contar as novas rugas no rosto que vão surgindo, porque elas já são incontáveis e ninguém repara se deixei ou não de passar batom. Os cabelos brancos me darão uma certa classe e poderei dizer adeus às colorações. Poderei também sentar e observar as pessoas sem ser observada e inventar histórias trágicas para todas elas, já que nasci com essa veia dramática, mas então poderei não me levar tão a sério e não precisarei mais (maravilha!) pensar no futuro, planejar o futuro, arriscar, construir, suar.
Sento e espero calmamente por ele. (o tempo é meu amigo agora. Todos são mais meus amigos agora que aprendi a não julgar, ou a não julgar mais tanto, ao menos.)Vou sentir falta dos decotes, ah que falta vou sentir dos decotes.! E de ser desejada, talvez. Ou talvez não, que nunca fui tão fatalíssima. Sexo? É, não irão mais querer me comer, chega esse dia, mas também, eu quase posso jurar que não vou querer dar. Sou muito acomodada e graças a Deus, gosto de ler. Velha e cheia de histórias, de fazer rir, de fazer chorar. Mas até lá, quem sabe, eu tenha aprendido a guardá-las. Dentro. E olhe com repreensão para aquela mocinha muito tagarela que fui, dando muitas vezes minhas pérolas aos porcos.
Amanheci com essa vontade de ser velha respeitada, exigir meu lugarno ônibus lotado, andar pelas ruas com a dignidade de quem conhece todas as pedras com que ela foi feita. E escutar:
"Bom dia minha senhora, não esta conseguindo ver o preço na etiqueta deste xampu? Eles o fazem muito pequeninos mesmo, tem toda razão, deixa que eu ajudo". Acordar com dor nas costas, mas me curar com gentilezas. Não porque tenha sido boa ou má, generosa ou egoísta, cruel ou delicada, porque ninguém saberá, e se rugas contam histórias, elas são contadas muito baixinho e uma vida-inteira é tempo demais pra pagarmos por nossos erros. Terei sobrevivido também a eles.
Uma reportagem na tv me mostrou aquela senhora, muito bonitinha, muito pequenininha durante uma visita de crianças entre quatro e seis anos ao asilo em que ela morava. Era Páscoa. Os pequeninos foram até lá cantar para os idosos. A repórter perguntou: "Dá saudades?" (pergunta ingrata). Ela respondeu: "Muita saudades, minha filha, lembro de quando eu era do tamanho deles e de como era na minha casa. Muitas saudades filha, muitas saudades..." E depois ficou ali, sentadinha, com aquela lágrima nos olhos, ensinando às crianças aquelas musicas antigas da Páscoa, como era na casa dela. E eu fiquei ali, no sofá da sala, com aquela lágrima nos olhos e amanheci com essa vontade de já estar velha. Mas num outro Brasil.

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