quarta-feira, 27 de maio de 2009

Você tem medo de que?



A pergunta era: do que você tem medo? Melhor reformular: do que não tem?

Medo de não amar, de não ser amada, de rejeição ou um dia ter que, finalmente, encarar de frente uma barata. De mudanças inesperadas, de perder minhas caixas cheias de cartas antigas, de ficar antiga, de ficar muito moderna e ridícula, de taxista chato que puxa assunto, de perdas emocionais, de ficar entupida de lembranças, de esquecer, de pular de para-quedas, de ficar paralizada, de olhar e não ver, de ver e agora? Medo de emburrecer, de separações, mesmo as desejadas, de chuva que estraga a chapinha, de tempestade que se anuncia, de gente chata, de gente medíocre, de criança muito esperta, de envelhecer. De ser pra sempre um vaso quebrado, de mentes perigosas, da minha. Da minha. Ah, daria pra parar de pensar? Dormindo? Não, acordada, dá pra parar de pensar tanto? Porque se penso muito, fico querendo encontrar um sentido e aí, as coisas ficam todas sem sentido e, sem sentido, eu morro de medo...

De avião, de morrer de morte súbita, de coisas não ditas que perderam a hora, de coisas ditas que não calaram, de ler a bula dos remédios, de não ler todos os livros que eu queria, de amores impossíveis. De tirar sangue, tomar injeção, tomar pé na bunda, fazer sofrer quem não merece, engordar, não saber quem eu sou. De saber e agora? Dá pra parar de rodar? Como um pião desgovernado, com medo de cessar de girar, cair e nada mais acontecer. E que acontece se não acontece nada?
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Acontece que não quero morrer de tédio, mas também quero jogar algumas fantasias fora. Se possível, todas. Quero ir embora, mas também quero ficar aqui. Aqui, onde fiz minhas próprias revoluções, sem queimar nenhum navio. Aqui, neste mesmo cais de porto. Acontece que eu quero segurança e adrenalina. Segurança e adrenalina.Segurançaeadrenalinasegurançaeadrenalinasegurançaeadrenalina. Medo de estar segura e viajar e ter adrenalina e puxar o freio de mão. Do que tenho medo? De partir meu coração. De não achar respostas pras perguntas inevitáveis. De não evitar as perguntas, de errar o caminho, de ficar muito cansada, de não aproveitar o trajeto, de árvores assustadoramente altas no meio do nada, de fila de espera de hospital, de perder o bonde, de errar o ponto do macarrão, de encher muito o copo e transbordar. E as vezes transborda. Ainda assim, não tenho medo de errar e fazer de novo, nem de ir fundo, trancando a respiração e subir à tona devagar. De gente que não se esconde, se inventa, se transforma e se perde e se encontra. Quinhentas vezes, se preciso. Não tenho medo do escuro, de ficar na contramão, de quebrar meu coração, contanto que isso me revele coisas essenciais sobre mim mesma. E sobre os outros. Não tenho medo de enlouquecer, nem desistir, quando acredito que não vai dar pé, nem de insistir quando tenho alguma fé.

Eu tenho medo de dar vexame, mas já dei alguns. De fazer papel de boba, mas já fiz, de me humilhar, mas já me humilhei. Eu já morri de amor, mas ressucitei.  Na prática, eu sou toda teoria.  Sou viagem, fantasia,  deserto do Saara, vez-em-quando algum Oasis, florzinha no cabelo, medo de ficar louca, faca afiada na língua, mel nos olhos, medo de alucinar, romance água com açucar, palavras, palavras, palavras. Livrai-me das esquinas escuras de mim, porque são elas que me amedrontam, mais do que tudo. Mas deixai-me com todas as ilusões, quero roçar minha boca nas bordas desse copo transbordante, deixai-me com a esperança verdinha, com toda poesia de amor, com toda a minha doçura e as minhas setencentas e cinqüenta mil frases de efeito, porque eu falo muito, mas não digo tudo. O essencial está guardado, quem tiver olhos de ver, verá, quem tiver ouvidos de ouvir, escutará. Mistério preservado, mesmo totalmente nua. Sem medo. E aprender que o verdadeiro streap acontece muito lentamente, dez minutos pra arrancar as meias, vinte minutos pra descobrir os seios, a vida inteira para ver meu coração. Com sorte.Abrir o coração, sem medo.



sábado, 23 de maio de 2009

Eu quero ser dona-de-casa



Deu sol, deu praia, deu tudo certo e tudo errado e o resto é aquela incógnita de sempre. Pra onde é mesmo que eu estou indo? A que horas passa o ônibus que devo tomar, quando é que eu vou chutar essa pedra da estrada? Viver sem fazer planos agora. É que planos exigem disciplina, determinação, paciência e eu estou sem os ingredientes no estoque no momento. E porque é que todo mundo ter um plano? Um plano A, um plano B, um plano de Fuga, objetivos na vida? Ai, isso às vezes cansa! Ó, lá vai a pérola do dia: eu queria viver como se tivesse os dias contados e não desse tempo de planejar nada a longo prazo.
Eu queria dar um abraço na minha mãe e pedir perdão pela eterna falta de paciência, mas não faço. Meus braços permanecem cruzados. E queria poder ficar chocada, não apenas um instante, mas o tempo todo, com tudo que acontece de errado no mundo. Eu queria permanecer de boca aberta, de indignação, mas também sou como toda gente. Não fico chocada tempo o bastante e tempo bastante é sempre! E, se eu vivesse mesmo como se tivesse os tais dias contados, não perderia tanto tempo fazendo joguinhos, usando artimanhas, disfarçando, negando, evitando. Telefonaria se estivesse a fim e não ficaria supondo que fulano vai pensar que sou carente ou muito dada. Enterraria essas velhas táticas imbecis. Eu não ia sair por aí soltando os cachorros não,  só ia ser menos falsa. E mais corajosa, talvez. Às vezes esperamos demais pra fazer o que precisa ser feito, como se o tempo estivesse inteiro à nossa disposição. Ou então não é com a gente, trabalhamos nos bastidores. Mas eu quero estar no palco algumas vezes, quero sim. Ser a protagonista, a anti-heroína. Tess D´Umbervilles, sem um final trágico. O que mais eu desejo? Anos de indecisão! Não sei o que eu quero,  não com aquela certeza que te faz seguir em frente, chutando as pedras do meio do caminho. Só sei que quero, quero, quero...alguma coisa, com uma sede absurda.

Sou estranha e insatisfeita. Nunca sei se quero que gostem de mim pelos meus seios ou pelas minhas idéias malucas. Se por acaso é por um, fico doida que não seja pelo outro, e vice-versa. Ah, mas tem uma coisa que eu sei que eu quero, aliás, acabei de me decidir! Quero ser dona-de-casa, assim mesmo, bem na contramão da evolução feminina. Ser sustentada, ó que delícia! Fazer muito cursinho à toa, pintura em porcelana, pintura em acrílico, pintura na puta-que-o-pariu! Massagem, depilação, análise. Estarrar-me em frente à TV pra ver a sessão-da-tarde e quando ele chegar, supondo que exista um " ele", correr pro abraço. (vou estar ajeitadinha, vá lá, prometo!). Essas feministas ferraram com a gente, eu porque não conheço nenhuma, senão metia a mão! Pra que mandaram a gente estudar, fazer faculdade e ficar inteligente? Eu quero é perguntar: "Ei amor, me diz em quem eu devo votar? ahahaha.
Eu quero ser burra! Burra, alienada e completamente feliz, dá licença! Ao menos por uns dias.
Tá, tá, eu sei, eu sei

Tudo, menos poesia....

Balada Triste


Não que eu não perceba o sol batendo de frente na minha cara

eu fecho os olhos pra não ver a desordem ao meu redor

Com medo de mudar.


Não que eu não sinta a palma úmida de minhas mãos se escondendo

eu estou só procurando um lugar pra largar esse copo

Me derramar.

Não que eu não veja essa poeira se acumulando sobre os móveis

essa poeira é o passado

O " ontem" que não consigo apagar.


Não meu amor,

não é que eu não ligue pras feridas abertas do meu coração

É que já me acustumei com a minha dor

e sem ela me sinto só.


Não é que eu queira piedade

nem é que eu precise chorar

É só essa noite, essa lua

esse gato miando no telhado ao lado


É só esse vinho, essa veia

Essa mesma música tocando sem parar


Que eu não percebo

que eu não percebo.

Amante

Que um dia ela virá
mas não seja agora.

Que ainda um tempo de gritar que não.

Eu lhe darei flores e a minha alma
e ela me ensinará a prosseguir
mesmo sem fé alguma.Virá com sua roupa de festa e tão bonita!
minha velha-amante a reclamar seu posto
Tão bonita que o devolverei a ela.

Minha alma o seu lar
Minhas lágrimas, fonte a matar sua sede infinita
Não a quero, mas ela virá.

Então vêm, amiga. Deita em mim teus estoque de arrependimentos
E descando em teus braços toda melancolia que me trazes
Doce...
Como doce é a pronúncia do teu nome
Que é só TRISTEZA
( sem sobrenome)


Que um dia ela virá
Mas que haja luta.

Que nenhuma lição seja aprendida sem antes uma grande batalha
mas que não seja ainda.

Que ainda uma canção a soar peloc aminho
Onde plantei os sonhos de outrora
E possa,com minhas mãos, ( forte, mas delicadamente)
um a um recolhê-los

Que ainda um coração que os comporte

Oração


Cruzar as fronteiras do teu esquecimento

Arrancando as vestes do tempo estagnado no coração

Dizer besteiras românticas

E sem sentido


Para que as ouça novamente

Sem sentimento

Ou sem ação


Extender impúdicas injúrias

De apaixonado


Para que possas podá-las com tua foice

Arrependimento

E com a mão


Fazer com que sonhem contigo às estrelas

Que tenho ouvido


Chorar teu acalanto meigo

Ao firmamento

E à razão


Mas não terminar

não terminar

Não.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Mãos-Dadas


Faz tempo que não temos mais 20 anos...
Estamos mesmo ficando velhos e ridículos como nos supõe os olhares de outros “ridículos-velhos-casais”? Você sabia meu querido companheiro, que se riem de nós, se acaso roças a mão mais demoradamente na minha, enquanto eu te passo o pires e a xícara na mesa do café da manhã? Já dobramos o Cabo da Boa Esperança e dizem que não nos ficam bem estes furtivos olhares, trocados ao longo do dia. E que é tolice irmos ao cinema ver um desses filmes proibidos aos menores de 18 anos, e comer pipoca e dar risadinhas, e voltar para casa só depois da meia-noite, andando pelas ruas de mãos-dadas.


Ah, se eles soubessem (mas não sabem) que este meu andar desparelho não é só reumatismo, mas é que ando tão embriagada de vida que tropeço, ando e volto a tropeçar, sempre amparada por todos os sonhos que ainda posso realizar. E se soubessem ainda, que ao chegarmos em casa, acendemos todas as luzes, como se todos os lustres fossem candelabros em um luxuoso salão de bailes e ouvimos músicas antigas como se fosse o último rock das paradas de sucesso.


Se eles soubessem que ao nos despirmos enxergamos cada poro e cada vinco um no corpo do outro. E nos beijamos com nossas bocas murchas e o nosso beijo tem gosto de banana madura com dentes rangendo. Rangem nossos corpos, magros, range nossa cama, que não trocamos faz bem uns quinze anos. E nossos corações descontrolados lá dentro, já nem batem, rangem apenas.
E se eu te perguntar de repente, companheiro, se estou mesmo muito velha e muito feia e muito louca, tu me dirás sorrindo que não. Dirás que estou linda assim: cheia de sonhos, rugas e cabelos brancos. És o gentil e prometido cavaleiro com o cavalo branco das histórias encantadas que vieram antes de nós. No entanto, meu velho, sei que estarás mentindo pra mim, pois nossa verdade declarada é o amor que restou, apesar do tempo que gastamos.


E se tu me perguntares (embora não pergunte), eu te direi que sim, que sinto por ti o mesmo singular carinho dos tempos de outrora,mas saberás que estou mentindo também. Mudamos todos nós, os sentimentos, os caminhos e as veredas. O impressionante é continuarmos. E na mesa de um café da manhã qualquer, olharás rindo para mim, rindo de escancarar os dentes e dirás: “ Minha velha, faz tempo que não temos mais 20 anos...”
Minha Namorada (Vinícius de Moraes/ Carlos Lyra)

Se você quer ser minha namorada/Ai que linda namorada/Você poderia ser
Se quiser ser somente minha/Exatamente essa coisinha/Essa coisa toda minha/Que ninguém mais pode ser

Você tem que me fazer um juramento/ De só ter um pensamento/Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho/De falar devagarinho/ Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho/E chorar bem de mansinho/Sem ninguém saber porque
E se mais do que minha namorada/Você quer ser minha amada/Minha amada, mas amada pra valer/

Aquela amada pelo amor predestinada/Sem a qual a vida ‚ nada/Sem a qual se quer morrer/
Você tem que vir comigo/ Em meu caminho/ E talvez o meu caminho/Seja triste pra você
Os seus olhos tem que ser só dos meus olhos/E os seus braços o meu ninho/No silêncio de depois
E você tem de ser a estrela derradeira/Minha amiga e companheira/No infinito de nós dois

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Ok, vocês venceram


Trabalhando. Duas da tarde. Desci pra fumar um cigarrinho. Atitude essa que é “condenável” em tempos onde as liberdades individuais estão sendo massacradas em nome de um bem coletivo. Dizem. O blá blá blá de que o trabalhador fumante gasta um tempo considerável de seu rendimento tragando a "Deusa do Mal" da nicotina. Desci. Fumei. Gastei o tempo precioso da minha empresa. Vinte chibatadas. Traguei. E estou lá, felizinha da minha vida, quando uma senhora muito lindinha, muito lourinha e muito arrumadinha aparece do nada, segura no meu pulso e quando pensei qeu ela iria me pedir uma informação, ela diz simplesmente: "Linda você, pena que fuma”. Ah, mas foi tão delicada no falar, no tom de voz, tão gentil no tocar o meu pulso pra ganhar minha atenção, que resolvi aliviar com uma boa notícia: “É por pouco tempo”.

- "Que bom"-disse ela.

Duas semnas atrás, saí de uma sessão de terapia daquelas arrasadoras, sobretudo para quem já se encontrava arrasada, quando resolvi sentar nos degraus de uma escadaria e, eis que estava lá, tristinha da minha vida, quando um senhor muito bonitinho, com a aparência muito fragilzinha com a sua bengalinha, parou na minha frente e disse: “Moça, você devia largar isso” . O que? O cigarro ou a tristeza?

-É, eu sei, - respondi com meu sorriso mais doce, enquanto ele me contava que há 30 anos decidiu largar e que hoje, z se não o tivesse feito, talvez estivesse não de bengala, mas possivelmente, morto. Enfim. Uma sábia escolha pessoal.

Agora é assim: você quer fumar? Insiste nisso? Mesmo que aumentem o preço do teu vício, mesmo se somados os gastos com o cigarro você pudesse comprar um carro no final do ano? Entao agüenta as consequências, as de longo, médio e curto prazo. As de longo e médio todo mundo já conhece, até porque estão lá no verso das malditas carteirnhas. E as de curto são essas sangue bom (não tao bom) . Abençoados os velhinhos gentis, que ainda te chamam de linda pra te fazer refletir. Mas o restante dos não-fumantes do Universo estão nos matando de tédio, tao lentamente quanto fazem as 6 mg de alcatrão, as 6 mg de nicotna e os 8 mg de monóxido de carbono que a gente ingere quando nos dá na veneta.

Acham que a nossa vida é moleza?

Outro dia eu devia ter fumado uma carteira, andava na rua, bem distraidamente, quando passa uma mulher e seu filhinho e ela dispara na minha cara (!) : "Credo, que nojo esse cheiro de cigarro!". E eu fiquei ali, pasma, com aquele vai-pro-diabo-que-te-carregue-sua-filha-de-um javali-horroroso, entalado na garganta. E no elevador? Fazem cara feia. Eu não faço cara feia com quem nitidamente esqueceu de passar o desodorante pela manhã, pelamordedeus! Em outra ocasião, joguei uma gimba de cigarro na rua (tá, isso foi feio, muito feio) e a mulher me olhou bem nos olhos com cara de quem estava me acusando de assassinato! Fiquei p. da vida, juro! Queria dizer: "Volta aqui já sua louca, jogo o que eu quiser onde quiser, porque quem está com coração partido pode tudo, estou me lixando com a rua, aliás estou me lixando com o Planeta Terra, com a economia de água, com a reciclagem do lixo, com a poluição sonora, com a pobreza da Índia. Vai te catar! Ahahahhaha. Eu tava doida, é verdade, muito mais do que ela.

Atualmente sou uma fumante em fase de transição. Parei de ser feliz há quatro anos porque me encontrava naquela idade em que anos de sedentarismo e algum bom senso (sem falar nas estatísticas) te fazem perceber que se é mortal. Então fumava e sentia uma taquicardia (imaginária) que representava o princípio de uma fulminate e mortal ataque cardíaco. Sabe como é, possuo uma mente muito sugestionável, o que imagino passa a ser, sem volta. Pânico. Assim sendo, fui pararno hospital umas três vezes, incluindo a noite de um aniversário porque queria porque queria fazer um eletro. Fiz. Nada a declarar.
Tudo bem, ficamos doentes, ocupamos os leitos de hospitais que podiam ser destinados a outros tipos de doetes, a Saúde gasta rios de dinheiro com gente do nosso tipinho. Estão proibindo o maldito em todos os cantos do Planeta, somos tratados feitos os comunistas de antigamente, somos uns idiotas que não ligamos pra nossa própria saúde, vamos morrer lentamente e o pior de todos os crimes: estamos matando os passivos do mundo. Ö senhor, que cantos do inferno será que iremos ocupar por tamanha falha de caráter?


Ok, ok. Me rendo. Vocês estão vencendo esta guerra. A patrulha anti-tabaco e suas leis e caras feias estao aos poucos nos matando de vergonha e humilhação. Guardem suas armas. O mundo enfim, vai se vendo livre de nós e se tornando cada vez mais, um lugar chatinho de se viver. A liberdade individual de vocës se entupirem de linguiça toscana, elevar suas taxinhas de colesteróis a níveis estratosféricos e ocupar o seu leito de hospital está garantida. Amém.

Para deixar de fumar, disque saúde:


080061 1997


Ou viva e morra como quiser.





sábado, 2 de maio de 2009

32 anos (40 graus ao sol, 39 graus à sombra)


Bem-Vindos 32 anos. E me identifico com a "Brigite Jones e seu diário", com a solidão cultivada de Hilda Hilst e a Clarice Lispector em: "A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver." Talvez tivesse hoje um filho, uma casa baguncada e um marido chamado "amor". Talvez tivesse me separado. Quem sabe tivesse engordado e não pintasse as unhas de cores fortes. Talvez tivesse sido feliz. Talvez nao. Mas não penso nas escolhas que não fiz. Penso nas que ainda faço.


Quando irei querer pertencer, juntar, dividir? Não sei e os porquês ocultos, aqueles que não consigo ver, talvez sejam justamente os mais importantes. Feliz e infeliz, como toda gente.Tantas pessoas que passaram, tantos momentos. Que bom que beijei 450 bocas e levei puxada de tapete, dei uns tapas na cara, amei, desamei, tentei amar, tentaram... Sonhos que se realizaram e que morreram na praia. Que bom que fui doida, inconseqüente e que nunca passei dos limites que eu mesma me impus.Já acordei com ressaca moral, mas também extasiada. Alguns arrependimentos, mas que só chamo assim porque aconteceram, tiveram que acontecer pra receber esse nome, senão seriam chamados de nada. Amor com Lennon e Mcartney, ao som de "All You need is love". E o dia amanhecendo e a gente ainda vestidos de noite, pedaços de maquiagem que restaram, roupa amassada, sorriso feliz e uma lua suave, chegando em casa.


Não envelhecer irremediavelmente sem ter passado por algumas situações constrangedoras que viram gargalhadas quando comentadas com as amigas antes de dormir e "não ri tão alto que o vizinho já vai reclamar" Não sei rir baixo, nem baixo sei falar. Amor? O amor teve seus nomes, alguns Paulos, Rogérios, Ivans. E no final, o amor pergunta: E agora? E agora, enquanto o amor não vem...que venha o que vier.

Um pouco de mau humor, embora seja bela a vida

Um sol deste tamanho lá fora e eu aqui, quase indo trabalhar. Mas um fim de semana desses e eu me mato. Aliás, já falei das minhas idéias suicidas?Quando eu era jovem eu imaginava que se nao me cassasse até os trinta, eu ia me matar. Não pelo casamento, mas pelo fato de não amar ninguém. Muito depois li um livro (Susan morreu, mas continua morando em Nova York) e a Susan era eu. Uma literatura entre trágica e cômica, porque eu lembro que gargalhei e chorei o livro inteirinho. A doida tinha essa mesma idéia e tentava colocar em prática. Mulheres são seres infelizes. A gente lê contos de fadas demais na infância e depois, na adolescência, já começa a se preocupar com coisas idiotas como estrias e celulite e aí, casa com alguém que vai ficar gordo e careca. Nao tem o menor sentido. Eles se preocupam com o tamanho do pau, a gente com o tamanho da bunda e assim caminha a humanidade.
Eu quero descer, já! Agora que eu fiquei irremediavelmente mais velha e mais chata eu dei pra achar todo mundo chato também. Chato de suspirar. Eu que costumava achar todo mundo "um barato de pessoa". Outro dia, numa festa à fantasia, sentou um Jedi ao meu lado, com espada de luz e tudo mais. Ele era divertido, parecia inteligente e adorei quando ele comentou que "reggae e rap eram tudo a mesma merda". Abri um sorriso quando ele cantou Chico e lembrei de agradecer em pensamento -" Deus é Pai" -, mas foi comentar com um amigo que o carinha parecia legal pra ouvir: " legal sim, é gay". Comentário dito politicamente correto, sem o "mas".... ("Legal sim, massssss é gay). Darth Vader é gay. Pode? Como diz uma amiga minha, o mundo é gay. Oscar Wilde, aquele pintor famoso, como é o nome? Era o Da Vince que era gay? E o Rock Hudson, Aquela Coisa. O Montgomery Clifft e Deus nos perdoem, mas até o John Wayne era gay. O Fred Mercury, que eu amo de paixão e sempre me deixa triste. Docemente triste. Meu melhor amigo é gay. E dizia que se nãoo cassássemos, ele com outro homem, eu com outro homem que não o dele, nos casaríamos aos trinta anos. Ele só tinha essa opção e eu, como já mencionei, tinha a do suicídio.
Temos ambos 32. Ah, nem olha pra mim, eu me matar por causa de homem, quer dizer por causa de falta de homem? Muito antes disso eu viro sapata. O mundo não é gay? Pois é, eu nunca quis fazer parte de nenhuma minoria, embora admire algumas. Eu preferia ser americana, obesa, paranóica e me sentir a dona do mundo a ter nascido na Somália, vão me desculpar! Se a maioria é gay, entrego-me! Mas eu vou contar uma coisa: mulher tem essa mania de dizer que vai virar sapata quando algum homem "mau"a magoa ou quando estão na fase das vacas magras , mas eu não sei porque elas pensam que isso seria a salvação da lavoura. Gente, com honrosas exceções as sapatas são uns canalhas de saias, nãoo muda nada. Elas também mentem, enganam, dizem que vão tomar um choppinho com as amigas "Irmãs Caminhoneiras Shell" e o pior é que nunca se sabe quem é amiga, quem é comparsa, ou quem é a "outra". Dá um tempo! O mundo é gay e cafajeste.
Já estão se matando corajosas meninas solitárias na faixa dos trinta? Não dá pra esperar até chegar aos quarenta que é quando a coisa realmente piora? ahahahahha. Eu ando tão mal humorada! Liga nao rapaziada, "no mais" a Vida é Bela, ao menos na visão do chatérrimo do Roberto Benigni e aquele filmeco horroroso que ele fez e levou um Oscar. O Oscar é gay e injusto, como a vida às vezes é bela, vá lá....

Sejamos delicados

Ele veio me dizer que anda decepcionado com as amizades. Com as relações de hoje em dia, tão superficiais, tão substituíveis. Ele só tem vinte anos. Eu precisei chegar aos trinta para me dar conta de que os amigos que me acompanharam na escola, na faculdade, na formatura, no primeiro emprego, no casamento da fulana, na separação do sicrano, já não são os mesmos.Que eu não sou a mesma, embora me reconheça mais do que reconheço a eles, mas isso apenas porque convivo mais comigo. Amizades de longa-data, que já viram as primeiras rugas um no canto dos olhos dos outros não deveriam excluir nunca aquela gentileza do início. Mais se perde isso e põe-se no lugar o que alguns chamam simplesmente de "sinceridade". Eu, graças a Deus, nao sou dessa espécie de "a verdade-acima-de-tudo". Aprecio que ela venha em doses homeopáticas e seja servida como aquele remedinho de gosto horroroso que os pais dão às crianças, com aquele carinho extremo, fazendo aviãozinho com a colher até que ela chegue na boca.
E em nome da sinceridade entre amigos, ofende-se (sim, sempre em tom de piada), magoa-se, colocam o dedo naquela sua ferida há tanto tempo esperando cicatrização. Ah, meus bons e velhos amigos, quando foi que perdemos a doçura e porque foi mesmo? Ah quanto tempo apontamos nossos defeitos e não nos damos de presente uns aos outros, um elogio daqueles de ficar com vergonha porque está correndo o risco de uma lágrima desabar ali no cantinho dos olhos, uma festa-surpresa, um "que bom que você veio", fico feliz por você ter trepado loucamente esta noite toda". Devo estar nostálgica. Ou aqueles que têm amigos antigos e queridíiiiiiiiissimos há "enta" e poucos anos e bebem no mesmo copo a mesma cerveja, ou a mesma torta no chá da tarde, dirão que isso nao é amizade, e que sim, bota fé na humanidade garota, amizades profundas e insubstituíveis ainda tem lugar nesse lugar estranho e lindo que é nosso planeta. (embora às vezes tão mal freqüentado).
Eu sei, eu sei...Isso já foi amizade, ainda é. Só está parecendo a roseira mais descuidada do jardim, ninguém se lembra de regá-la, a começar por mim. Fica igualzinho aqueles casos de amor, tão promissores no inicio, tão cheios de "meu benzinho-amarei-te-eternamente." Cheio de palavrinhas antes e palavrões depois. Ele não elogia mais o vestido novo dela, ela não diz mais do imenso orgulho que dele sente. O sexo ainda é muito bom e os corações não se entendem, nem falam. Amizades são casos de amor. Alimentemo-nos uns aos outros, pois pode ser que a estrada já não seja a mesma, mas grande parte dela percorremos juntos. Reguemos as nossas flores, sejamos cuidadosamente delicados.

Pro mundo fazer sentido


Ai meus sais, eu preciso mesmo me apaixonar. Pra certas músicas passarem a fazer sentido.Eu quero me apaixonar pra sair com umas amigas e elas ficarem desenhando corazõenzinhos no ar, pra eu rir. Mas ele vai precisar saber dançar. É essencial. Mas até que bom caráter. Um bom malandro, mas que saiba dançar, assim, juntinho, num forró ou gafieira e que se se tirar uma amiga minha pra dançar não me pareca ridículo ou desengonçado, ou eu broxo. E se broxo, vão me desculpar, nunca mais levanto! Quero me apaixonar pra sair mais cedo da festa, com aquela desculpa de que preciso acordar cedo no outro dia, mas sabendo que não vou dormir. Acho o máximo do chique. E praquela homarada do trabalho parar de ficar me chamando de "gostosa"a cada vez que eu passo, só porque acham que podem porque eu não tenho namorado. Ó, prestatencão (!), eu quero ser gostosa, mas daquelas que impõem respeito, sabequalé?


Eu quero me apaixonar pro cara saber todas as combinações possíveis que faço com minhas roupas e notar que tenho um tamaquinho lindo, do mesmo modelo, um em azul e outro em vermelho. Eu quero me apaixonar porque é ruim, mas é bom. Assim como cigarro, só que eu quero parar de fumar, porque o médico disse que se eu não parar "babau" e quero começar a amar, que é pra viver muito ou ao menos, in-ten-sa-men-te. Ou morrer de ansiedade.


O melhor da paixão é comigo mesma. Eu fico irremediavelmente romântica, eu leio poesias e todas foram feitas pra mim, me dá vontade de estar sempre ouvindo Vinícius e Tom Jobim, ou seja, culturalmente a paixão faz por mim o que nenhuma educadora conseguiu. Eu vejo filmes e torço pelos finais felizes, porque quando estou só, acho lindo os finais tristinhos, por pura identificação. Eu quero me apaixonar, mas esse "querer" é paciente, porque a paixão precisa acontecer qdo eu estiver distraída, qdo eu estiver esquecida de que "quero". Tem que parecer casual, inesperado, "sem querer". Eu preciso me apaixonar pro mundo passar a fazer sentido. Mesmo que continue não tendo, sem ilusões.


Eu fico mais bonita, se não fico, me acho, se me acho, me acham, quer dizer, começam a aparecer propostas e oportunidades de tudo quanto é lado, aí paro e penso se escolhi certo ou se é certo escolher um único privilegiado e fazer tantos outros infelizes. E aí o cara pressente a dúvida e fica inseguro e ele fica tao bonitinho inseguro que a dúvida some. É só ele que eu quero, não se sabe até quando, mas tem uma frase de uma música do Chico que eu gosto muito que diz :


" Prometo te querer até o amor cair/ doente/doente.....prefiro entao partir a tempo de poder/ a gente se desvencilhar/ da gente..."


Eu quero me apaixonar pra não ficar estressada com coisas muito pequenas. Minha chefe me enche o saco e ao invés de pensar que vou ter uma úlcera de tanto engolir palavrão, eu simplesmente penso sorrindo: "eita, que essa mulher esta precisando trepar". Amor deixa a gente benevolente. Com gente chata, com gente mesquinha, com gente feia, com gente infeliz. Quero passar hidratante nas pernas com mais atençao. Então, eu preciso me apaixonar pra indústria dos cosméticos começar a ganhar dinheiro comigo. Eu preciso me apaixonar pra andar de mãos-dadas, porque essa foi a melhor coisa que inventaram no mundo, depois da energia elétrica. Mãos-dadas passa um recado pro resto do mundo que eu adoro , ainda que o resto do mundo esteja se lixando pra isso: "Ele é meu-ela-é-minha" e eu sempre me amarrei nos adjetivos possessivos. 'Meu" é minha palavra favorita depois de "suburbano". Sofrer? Por excesso, nunca por falta. Paixão é complicada no início, fica dificil no meio e é terrível no fim, mas eu prefiro ir à festa, mesmo sendo ela chata, do que ficar vendo TV em casa. Eu preciso me apaixonar pra festa começar.


Todo Sentimento

Chico Buarque


Preciso não dormir

Até se consumar

O tempo

Da gente

Preciso conduzir

Um tempo de te amar

Te amando devagar

E urgentemente

Pretendo descobrir

No último momento

Um tempo que refaz o que desfez

Que recolhe todo o sentimento

E bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer

Até o amor cair

Doente Doente

Prefiro então partir

A tempo de poder

A gente se desvencilhar da gente

Depois de te perder

Te encontro, com certeza

Talvez num tempo da delicadeza

Onde não diremos nada

Nada aconteceu

Apenas seguirei, como encantado

Ao lado teu


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Para Daniel Théo

Uma noite dessas fui ao encontro de um menino adorável em seus recém completados vinte anos, que estava precisando muito desabafar com alguém. Havia finalmente cedido aos apelos de uma fotógrafa que lhe convenceu ser bonito, fez um "book" gratuitamente e apostou que ele chega até Milão. Eu aposto também. Ele tem um rosto lindo e uma boca dessas que se você vê sabe que é extremamente beijável. Pois ele estava se sentindo ridículo por ter estado lá, "não-sei-quantas-horas" a mudar de roupa "não-sei-quantas-vezes" e a fazer caras e bocas. E na inocência dos vinte anos acha que está a atraiçoar os ideais em que acredita. Ele tem uma banda que só toca Beatles, ele ama Beatles, eu amo Beatles, só que nunca tive porra de ideal nenhum. O que eu iria dizer ao garoto?
Eu queria ter nascido linda. Linda de doer. Linda como ele, num dia de verão na praia, com seus óculos escuros e os cabelos desgrenhados. Tão lindo que não resisti e corri para beijá-lo. Linda pra poder andar na rua desarrumada, como ele, com calça jeans surrada e camiseta furada com a estampa do MST. Linda pra somente piscar e um exército inteiro perder a guerra. E não precisar dizer frases espirituosas. Tão linda que ninguém se importasse se numa conversa D.J Sallinger fosse citado e eu retrucasse: "quem?". Está bem, assim fica parecendo que eu sou dessas feias que acham que toda linda é burra. Eu não acho, assim como não acho que toda feia seja inteligente, assim como não me acho feia nem inteligente, assim como é coincidência que só neste momento eu não consiga achar o nome de uma linda-inteligente...ahahhahaha. Se alguém lembrar de Clarice Lispector agora, arrasa minha crônica! Posso estar atravessando o meu samba até, mas só quero dizer que se me fosse dada a oportunidade de escolher (e a vida não é feita de escolhas caros existencialistas?) entre ser linda e burra ou feia e inteligente, se só houvessem essas duas dolorosas opções, sem meios-termos e mais nenhuma, eu escolheria a primeira. Linda, burra e com uma boa e grande de uma bunda, já que nasci no país em que ela reina absoluta. E eu ia felizinha lá para o "Big Brother" metida em biquinhos cavados, sim senhor! Não me diga que estou atraiçoando meus ideais, porque eu já disse que nunca tive um, não que eu me lembre agora. Quem quer ser inteligente num país onde pagam 300 mil pra gente mostrar apenas a nossa bundinha na revista? Não fica mal por ser bonito demais não, meu lindo, até a tua hesitação é bonita. Antes de ir, canta "All you need is love" pra gente, com teu visual mais escrachado. Se não te clicarem, eu te clico. Se teu destino enfim, não for Milão, ruma direto aqui, pro meu coração.

NOBEL DA PAZ: se nao tem pra quem dar, cá estou!

Eu estou recolhendo assinaturas (principalmente no Afeganistão, mas creio que os somalis irão aderir também) para um abaixo-assinado reinvidicando que conste o meu nome na eleição para a escolha do Prêmio Nobel da Paz de 2001. O ano em que tudo aconteceu. De ruim. Os EUA literalmente vieram abaixo, matam uns cinco ou seis mil afegãos, que um em seis mil pode ser (Oxalá, Alá!) o Bin Laden, a Argentina quebra, o Sílvio Santos é seqüestrado, putzgrila! Só comigo é que não rolou nada, nem uma adrelinazinha.
Não fui promovida, não fui sorteda pro Big Brother. E não fiz nada para merecer o Nobel da Paz, confesso. Mas também tanto faz, num ano em que entre os nomes indicados constam o do filhinho de papai, George Bush Filho, Presidente dos Estados Unidos da América e Contra o Resto do Mundo e o do Primeiro-Ministro inglês,Tony Blair. Eu votava no Toninho como um dos poderosos mais sexy do mundo, juro! E no Bush não votava nem pra síndico do meu prédio, juro também! Alguém pode me explicar, de modo razoável e, se possível, bem devagar, pra que eu entenda, o que é que esses dois fizeram em 2001 ou no restante de suas vidas em nome da paz? Desculpai-os Madre Tereza de Calcutá, Martin Luther King, eu lhe rogo, eles não sabem o que fazem!
Se for algo do tipo: "nao sabemos pra quem dar, vamos dar pra qualquer um", por favor, dêem o Nobel para mim, eu nunca ganhei nada, nenhuma "linha"em bingo, nem um ursinho no tiro-ao-alvo, nem uma outra raspadinha ao raspar a raspadinha, please!!!! E se for por merecimento, peço que me perdoem a arrogância, mas ao lado do Bush ainda sinto que levo a melhor. Eu AJUDEI uma velhinha a atravessar a rua aos 13 anos! Eu sempre me ofereço pra segurar as sacolas de quem esta em pé no ônibus, eu choro no final do Incrível Hulk! E se eu não fiz nada pra merecer o Nobel, se eu nunca promovi a paz no planeta, no mundo, no Brasil, no meu estado, na minha cidade, no meu bairro, quiçá na minha casa, também não saí por aí fazendo guerras e me metendo na guerra dos outros. Sou mais eu!

Jeanie é um gênio


Quando eu era pequena eu queria ser a Jeanie. Aquela que era um gênio. Como era bom sonhar que se podia jogar o rabinho de cavalo pra frente e realizar todos os desejos. Estar em qualquer parte do mundo, com as roupas mais bonitas e resolver todas as trapalhadas com um passe de mágica. Ela era meio medrosa, meio patricinha, até meia burrinha, mas ela tinha o Major Nelson, aquele gato! Outro dia vi na TV, num desses programecos onde ressuscitam os mortos, ela, a atriz que interpretava a minha ídola infantil. Cheia de rugas e lágrimas, duzentos anos depois. Vida dura a da mocinha. Vida dura essa de quem não tem um rabo de cavalo que balança pra frente e resolve tudo. Dois casamentos fracassados, pouco sucesso depois daquele papel, que só durou cinco anos e um filho que morreu por overdose de drogas. E daí? Dezenas, centenas de mulheres apanham dos maridos, não conseguem ser nada na vida, filhos morrem todos os dias. E daí nada, mas foi como descobrir que Papai Noel não existe em uma idade em que isso já não tem a menor importância.


Coitada da Jeanie, mas se eu tivesse um rabo de cavalo e um narizinho arrebitado capaz de realizar meus desejos, eles seriam inúmeros. E todo dia, após um desejo realizado, talvez eu morresse de tédio. A vida totalmente facilitada, entregue numa bandeja não teria muita graça. Mas se eu pudesse satisfazer apenas a um desejo, gostaria de pedir um fone de ouvido, que me falasse mais vezes com a voz que vêm do meu coração. E então talvez ela tivesse me dito ao longo destes anos: "Saia dessa casa, mude de lugar a cada três anos, fique um longo tempo sozinha, depois reúna-se, partilhe, sempre. Seja menos auto-crítica, aprenda a odiar sem culpa algumas vezes. Acorde mais cedo, aprenda a fazer café. Cure uma a uma suas mágoas. E as que não curarem, apenas deixe lá. Não pense tanto, faça planos, mesmo bobos, desista de alguns, mas leve outros adiante. Não seja tão preguiçosa, não sinta tantas saudades do que já foi. Não tenha medo, ao menos não esse que paralisa.


Cante mais, dance mais pela casa, como fazia antigamente. Não sinta pena de você, não beba champanhe que esse negócio te deixa enjoada. Aprenda a impor respeito, mas não sendo grossa, que essa não é a maneira correta. Sorria mais, dê mais gargalhadas, cozinhe, borde, olhe mais pras suas mãos. Mexa-se mais, ame mais, ame melhor, aprenda a ter nexo e a gostar de Natal. Ouça mais samba, samba te deixa leve, te anima, te acende. Leia menos poesias, não tape seus buracos com fantasias. Não sonhe demasiado, ouse, planeja, faça. Diga "eu te amo" pra sua mãe, ao menos uma vez. Ao menos uma vez aprenda a ouvir "eu te amo", sem sentir o peso da responsabilidade. Esqueça.


Faça mais festas de aniversário, reúna -se com seus amigos e não fique tão triste se as coisas e as pessoas mudarem. Mude. Entenda. Dê de ombros mais vezes. Não fume demais, não durma demais. Veja mais manhãs durante a vida. Reclame menos, tire mais fotografias, de você mesma, de seus pais, seus irmãos, seus amigos. E de pessoas e lugares que você sabe que dificilmente irá rever de novo. Guarde todas as suas cartas de amor. As enviadas e as recebidas. E não as leia senão muito tempo depois. Vá em frente, prossiga, andando sem parar, mesmo sem fé alguma. Imagine um ponto de chegada, mas se não chegar, curta o trajeto, a paisagem, o clima e o cansaço. E não se preocupe tanto com o que virá. O futuro nunca chega, ele esta sempre por vir.

Debaixo do tapete

Ela conversava, já não lembro sobre o quê, mas uma frase sua me ficou na cabeça: "Sabe essas coisas que acontecem e que a gente não consegue acomodar em lugar nenhum?". Gostei logo desse "acomodar", mas não soube o que dizer. Ainda não sei. Porque quanto mais eu penso, quanto mais lembro de coisas que me aconteceram, ou que aconteceram com outras pessoas, quanto mais penso em coisas que acontecem todos os dias, mais eu penso que eu consigo acomodá-las sim, em algum lugar. E se parece que não cabe ali, cabe acolá. E se parece que não tem mais espaço, um lugar se abre, ou se expande, ou se inventa lá dentro e sempre, sempre se acomoda. Eu me acomodo, deve ser exatamente por isso que as tais coisas acabam cabendo em mim.
Eu vejo tanta coisa e nada é novo, nada é absurdamente espantoso, nada é maravilhosamente surpreendente, nada é chocante a ponto de paralisar. Fui eu quem ficou assim? Os lugares em mim que retêm aquilo que vejo, que sinto, comportam tudo isso, mas se sofro, é com um conformismo que não sei de onde nasceu. Só sei que não deveria ter nascido. Se eu amo, sei que vai passar, porque é só virar a esquina e vou encontrar um amor maior, mais bonito. E se me amam, ali na esquina tem alguém melhor, mais bonito. E se choro não é mais de surpresa, é porque "ah, eu já sabia... eu já esperava...". E se alguém bota fogo num mendigo eu abro a boca, indignada, mas me levanto pra buscar uma coca-cola na geladeira e quando volto já estou dando risada, de uma outra história qualquer, alguém mudou o canal da televisão. E tudo passa, tudo sempre passa. Mas não devia passar.
Eu fico aqui, querendo conhecer uma vista mais bonita que esta da minha janela e a vista que eu tenho daqui é linda, só que já me acostumei com ela. E o carinha nem é tão bonito, porque eu sei que ele tem orelhas de abano que o cabelo acaba escondendo. Eu nunca posso ver as orelhas (porque o cabelo sempre esconde), mas eu sei que estão LÁ, então ele não é tão bonito assim. Eu me engano. Pra caber. E tem louco pra tudo no mundo, eu vou me chocar com que? Eu agüento, eu absorvo, eu até justifico algumas vezes, pior que isso: eu aceito.
Eu guardo coisas velhas nas gavetas, eu guardo coisas desnecessárias no meu coração. E você vai dizer que não, que você não (!), que você ainda não se transformou nesse serzinho desprezível, conformado, comum, acomodado, mas dá uma olhada direito, com mais atenção. Respeito a todos os que são diferentes, aos que são iguais a mim sou indiferente. E o que se varreu pra debaixo do tapete ainda está lá, não se pode ver, mas é um lugar dentro de gente, acomodando essas coisas, todas essas coisas que acontecem.

Coisas com as quais nunca irei me conformar

Não ter sido eu a escrever a Música " Luísa" ( Tom Jobim)
Não gostar de champignon
Ter vindo ao mundo muito tarde pra que pudesse ter assistido a um show dos Beatles
Ter nascido com redemoinhos nos cabelos
O Brizola nunca ter sido eleito Presidente da República
Nunca ter elegido nenhum candidato político com meu voto, fora um vereador que esqueci quem é.
Não ter sido eu a compor "O que Será" (Chico Buarque)
Não ser a Bruna Lombardi e estar casada uma vida inteira com o Ricceli
Nunca ter acampado
Não ter dito "eu te amo" quando eu amava.
Nâo me conformo com a beleza da Natascha Kinski
Marlon Brando ter engordado
O Chico ter se separado da Marieta Severo (ela se conforma?)
A filha do Chico ter casado com o Carlinhos Brown!
Não me conformo com Carlinhos Brown
Criança batendo no vidro do carro atrás de uns trocados
Vidros que não são abertos
O final de "Casablanca"
Alguns dos meus finais.
Não me conformo de Caetano ter apoiado FHC,depois de ter apoiado Brizola.
Velhos em asilos, qualquer que seja a justificativa.
O Rei do futebol ser Pelé
O Rei da Música ser Roberto Carlos
Pena de morte
Qualquer homem bonito ser gay!!
Nunca ter sido um pequenino (Terra dos Gigantes)
Minha melhor amiga pensar em casar com um Uruguaio
Não ter transado com quem me deixou doida de tesão pra não parecer fácil e ter transado com quem não valia a pena só pra deixar de ser boba quanto a essa história de parecer fácil
Acharem que o maior corrupto do Brasil foi Fernando Collor de Mello.
Não me conformo com arrogância
Acharem graça na Meg Ryan
Pedantismo
Aquele senhor com um sorriso triste vendendo pipoca na esquina aos sessenta anos de idade
Menstruação
Alguém ter posto fogo num índio
Alguém ter atirado no Papa
Alguém ter atirado em John Lennon
Alguém não ter atirado em ACM
Envelhecer
Ter ido ao Rio e não ter visto o Cristo Redentor
Não ter escrito "Tabacaria" (Fernando Pessoa)
O tom nunca levar a melhor sobre o Jerry
Não me conformo de me conformar pacificamente.

Carta de amor total a Johnny Depp



Eu estava toda chorosa por causa de um cara que me deu o pé. E de repente ele parecia o homem mais incrível do planeta, que é o que sempre parecem ser os caras que nos dão o pé. Mas eis que por um desses mistérios divinos, entro num site babaca na internet e encontro várias fotos do único babaca do planeta por quem deve realmente valer a pena viver. O único de cujo pé na bunda mulher nenhuma deve se levantar jamais, que o diga Winnona Rider, que mesmo anos depois, cura sua mágoa roubando lojinhas nos EUA. Meus senhor, .eu amo desesperadamente o " Eduard Mãos de Tesoura" e fodam-se essas amostras grátis que a gente tem que engolir por aí, por absoluta injustiça divina. Eu não sei pra quê eu nasci, não tenho missão no mundo, a vida não tem o menor sentido se vejo o Jonnhy Depp sorrindo, sério, drogado, com o cabelo à escovinha,de óculos, loiro, moreno e até morri de paixão com ele traveco em um filme espanhol. Johnny eu sou magrinha!! Decidi: se for pra sofrer (e todo sofrimento é real, inclusive o imaginário), não vou choramingar por artigos inferiores, embora mais ao meu alcance. Vou sonhar alto e sofrer pelo Johnny, porque minha vida não vai ser completa sem aquele sorriso e aquele corpo coberto de tatuagens. No fundo dizem que o rapaz é esquisito, recusa grana e entra numas produções alternativas que nem sempre dão certo e até quebra hotel e bate na namoradinha esquelética. Não tenha filhos amor, não se case, vá morar numa ilha meio deserta no Taiti como o velho Deus Marlon, não engorde, não fique careca. E espere por mim. Eu vou chegar. Com sorte ainda sobra espaço nesse corpo gostoso pra tatuagem definitiva, a útima: Tess forever.....

Aurora

Um dia desses amanheci com vontade de já estar velha. Velha, no melhor sentido que essa palavra pode ter. Sempre gostei de coisas antigas, gastas, usadas, constantemente e bem usadas. No sentido de útil, claro! Velha e realizada. Ou velha e frustrada por uma porção de coisas que deixei de fazer. Velha e feliz por ter sobrevivido à vida. E deixar de contar as novas rugas no rosto que vão surgindo, porque elas já são incontáveis e ninguém repara se deixei ou não de passar batom. Os cabelos brancos me darão uma certa classe e poderei dizer adeus às colorações. Poderei também sentar e observar as pessoas sem ser observada e inventar histórias trágicas para todas elas, já que nasci com essa veia dramática, mas então poderei não me levar tão a sério e não precisarei mais (maravilha!) pensar no futuro, planejar o futuro, arriscar, construir, suar.
Sento e espero calmamente por ele. (o tempo é meu amigo agora. Todos são mais meus amigos agora que aprendi a não julgar, ou a não julgar mais tanto, ao menos.)Vou sentir falta dos decotes, ah que falta vou sentir dos decotes.! E de ser desejada, talvez. Ou talvez não, que nunca fui tão fatalíssima. Sexo? É, não irão mais querer me comer, chega esse dia, mas também, eu quase posso jurar que não vou querer dar. Sou muito acomodada e graças a Deus, gosto de ler. Velha e cheia de histórias, de fazer rir, de fazer chorar. Mas até lá, quem sabe, eu tenha aprendido a guardá-las. Dentro. E olhe com repreensão para aquela mocinha muito tagarela que fui, dando muitas vezes minhas pérolas aos porcos.
Amanheci com essa vontade de ser velha respeitada, exigir meu lugarno ônibus lotado, andar pelas ruas com a dignidade de quem conhece todas as pedras com que ela foi feita. E escutar:
"Bom dia minha senhora, não esta conseguindo ver o preço na etiqueta deste xampu? Eles o fazem muito pequeninos mesmo, tem toda razão, deixa que eu ajudo". Acordar com dor nas costas, mas me curar com gentilezas. Não porque tenha sido boa ou má, generosa ou egoísta, cruel ou delicada, porque ninguém saberá, e se rugas contam histórias, elas são contadas muito baixinho e uma vida-inteira é tempo demais pra pagarmos por nossos erros. Terei sobrevivido também a eles.
Uma reportagem na tv me mostrou aquela senhora, muito bonitinha, muito pequenininha durante uma visita de crianças entre quatro e seis anos ao asilo em que ela morava. Era Páscoa. Os pequeninos foram até lá cantar para os idosos. A repórter perguntou: "Dá saudades?" (pergunta ingrata). Ela respondeu: "Muita saudades, minha filha, lembro de quando eu era do tamanho deles e de como era na minha casa. Muitas saudades filha, muitas saudades..." E depois ficou ali, sentadinha, com aquela lágrima nos olhos, ensinando às crianças aquelas musicas antigas da Páscoa, como era na casa dela. E eu fiquei ali, no sofá da sala, com aquela lágrima nos olhos e amanheci com essa vontade de já estar velha. Mas num outro Brasil.

Amor (xarope de colherinha na boca)


Aos treze anos mandei fazer meu mapa astral. Fiquei um mês esperando que ele chegasse pelo correio e paguei por ele uma grana considerável! Ele chegou encadernado em azul, enumerando minhas supostas qualidades e defeitos e fazendo uma previsãozinha básica sob os meus anos de vida dali pra frente. O que guardei foi: "está escrito que você amará uma única vez na vida". Como? Eu era caída de amores aos treze anos por um garoto da minha rua, Valdemir, apelido, Mi. E Mi não dava a mínima pro meu "amor". Talvez a frase se referisse a amor de verdade, desses descritos nos clássicos, desses que são eternos. Desses que quase não existem, ou que eu pelo menos, não conheço, nem de ouvir falar, infelizmente. Mas não sou uma alma cinza sem esperanças, não senhor! Creio que em alguns lugares do mundo, em algum tempo, talvez mesmo agora, existam amores assim e meu melhor sorriso nesse momento é para eles. No mais, acredito que duas pessoas se unam por inúmeras razoes, mas pouquíssimas, por amor.


Carência, tédio, curiosidade, paixão, talvez amizade, economia, medo da solidão. Tudo isso pode fazer parte do amor, mas em principio nada disso o é, pra mim. Amor é o que não se explica. Tanto que não vou fazê-lo. Pena que alguns acreditem na morte do amor, quando só as relações amorosas tem finais. Como Nelson Rodrigues na pele de "Myrna", eu acredito em amores eternos. Transformar esse amor em relação, com casa, filhos, geladeira, televisão, amigos e faze-lo durar nem sempre é possível, amores há que não cabem em uma relação. Mas sendo amor, mesmo terminada a relação ou a tentativa de relação, o que fica ainda assim, é amor. Esse amor inabalável e infinito, cheio de sorrisos e lágrimas que buscamos todos e que poucos de nós encontramos. Há um bocado de sorte nos guiando até esse encontro e talvez alguma fé. Quando penso nisso, um nome me vem a lembrança, e talvez nem seja esta a palavra adequada, já que "lembrança" remete a algo que ficou por algum tempo esquecido, e este nome, este, sempre esteve comigo. Se não na minha boca, na minha língua, na garganta, o quanto mais guardado, no coração.Quando me falam de amor, quando escuto uma música de amor, quando quero falar com argumentos sobre o amor, é esta a minha referência, um nome que antes era a minha oração diária.


Ele acredita que amores terminem e em seu lugar outros amores sejam colocados. E que não entende, passado tanto tempo, porque há um sentimento que ele não ousa chamar de amor, que continua presente. Brando e suave, roçando muito lentamente o coração, onde antes deixou sua marca, com força e paixão. Se me pergunta o que é isto que ficou, que faz com que às vezes, quando esbarramos pela vida, me olhe quase indiferente, tranqüilo e em outras sinta uma ternura que o quase faz chorar e vontade de pegar na minha mão, eu fico quieta, sem responder. Não vou dizer, "é o amor que ficou, o amor que lutamos pra caber numa relação, mas que não coube, mas que sempre vai estar aí", de uma outra forma. Ele se encheria daquele seu costumeiro olhar de desafio e perguntaria: Então porque não ficamos juntos?Não acredito que tenha sido por falta de amor, porque não sou dessas que acham que o amor a tudo e a todos vença e que ele triunfará em quaisquer circunstâncias, sob quaisquer hipóteses. Porque não basta amar. Moço,o amor está aí quando nos encontramos a sós, com o que fomos e o que somos. Pedaços da nossa história revisitados cada vez mais com sorrisos e risos e menos com mágoas, porque conseguimos curaá-las com o tempo e com esse nosso amor que ficou. Este amor que não esta mais em beijos e vida em comum, mas que está nítido numa carona pra casa, de madrugada, de mãos-dadas....